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Canabidiol e sertralina: podem ser usados juntos?

8 min de leitura

Neste artigo, você vai entender como o CBD e a sertralina interagem no organismo, por que o tipo de extrato de cannabis faz diferença nessa combinação e quais cuidados ajudam a tornar o uso conjunto mais seguro.

Ilustração editorial sobre canabidiol e sertralina.
  • O CBD pode reduzir a atividade da enzima CYP2C19, que participa do processamento da sertralina no fígado, o que pode aumentar a concentração do antidepressivo no sangue.
  • O tipo de extrato importa: produtos com THC trazem efeitos próprios que podem se somar aos da sertralina.
  • A dose de CBD e a qualidade do produto, comprovada por laudo de análise do lote, pesam tanto quanto o tipo de extrato.
  • A sertralina nunca deve ser interrompida por conta própria, e qualquer mudança no tratamento deve ser feita com orientação médica.

O cloridrato de sertralina é um dos antidepressivos mais prescritos no mundo e pertence à classe dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), sendo indicado principalmente para depressão e transtornos de ansiedade.

Paralelamente, o uso de produtos de cannabis ricos em canabidiol (CBD) cresceu de forma expressiva nos últimos anos.Como o composto também é frequentemente procurado para o alívio da ansiedade, é cada vez mais frequente a dúvida sobre se é seguro e eficaz combiná-lo com o antidepressivo.

Para responder a essa pergunta, o primeiro passo é entender o que acontece quando as duas substâncias estão no organismo ao mesmo tempo.

Como o CBD e a sertralina interagem no organismo?

Para entender essa interação, vale acompanhar o caminho da sertralina no corpo. Depois de absorvida, ela passa por um processo de transformação no fígado, que ajuda o organismo a eliminá-la. Esse trabalho depende de enzimas, pequenas “ferramentas” que participam do processamento dos medicamentos.

É nessa etapa que o CBD pode interferir. O canabidiol pode diminuir a atividade de uma dessas enzimas, chamada CYP2C19, que participa da metabolização da sertralina. Com essa ferramenta funcionando mais devagar, o antidepressivo pode levar mais tempo para ser processado e atingir uma concentração maior no sangue, mesmo que a pessoa continue tomando a dose habitual. Isso pode aumentar a chance de efeitos colaterais.

O fígado, porém, conta com outras enzimas para processar a sertralina. Além disso, a genética, a dose de CBD e os demais medicamentos utilizados influenciam a resposta de cada pessoa. Por isso, essa interação é uma possibilidade, e não uma consequência inevitável da combinação. Os estudos específicos ainda são limitados, e um estudo em laboratório, feito com enzimas do fígado, encontrou interferência mínima do CBD no metabolismo da sertralina.

Na prática, conhecer esse mecanismo ajuda o médico a acompanhar a resposta ao tratamento e avaliar se algum ajuste é necessário, considerando como cada pessoa se sente ao longo do uso.

O tipo de extrato de cannabis faz diferença para quem toma sertralina?

Pode fazer. Os produtos de cannabis variam na quantidade de CBD, na presença de THC e nos demais compostos da fórmula, e essas diferenças pesam na avaliação médica da combinação com a sertralina. Isso não significa, porém, que um tipo de extrato seja sempre mais seguro que outro: ainda faltam estudos clínicos que comparem diretamente essas formulações em pessoas que usam o antidepressivo.

O CBD isolado contém apenas o canabidiol purificado, sem os demais compostos da planta. Por ter uma composição mais simples, permite saber com mais precisão o que está sendo consumido, mas o próprio CBD continua podendo interagir com medicamentos. Os produtos de espectro amplo, por sua vez, mantêm outros canabinoides e terpenos, mas são formulados para não conter THC. Ainda não está bem estabelecido se esses compostos adicionais alteram de forma relevante a interação com a sertralina.

Já os extratos de espectro completo, também chamados de full spectrum, reúnem diversos compostos da planta, incluindo o THC em quantidades variáveis. Nesse caso, além da possível interação no metabolismo, é preciso considerar os efeitos do próprio THC, como sonolência, tontura, aceleração dos batimentos e, em algumas pessoas, aumento da ansiedade. Alguns desses efeitos podem se somar aos do tratamento e merecem acompanhamento, o que não quer dizer que todo produto full spectrum vá provocá-los.

Tão importante quanto o tipo de extrato é a quantidade de CBD efetivamente utilizada, já que a interferência nas enzimas do fígado tende a ser maior em doses mais altas. Para saber essa quantidade, é preciso considerar a concentração do óleo, indicada em miligramas por mililitro, o volume consumido e a frequência de uso.

Quais sintomas merecem atenção ao usar CBD com sertralina?

Durante o uso de CBD com sertralina, vale observar mudanças no bem-estar, principalmente após iniciar o canabidiol ou aumentar a dose. Esses sintomas não confirmam uma interação, já que muitos podem estar relacionados aos próprios medicamentos, mas ajudam o médico a avaliar como o organismo está respondendo à combinação.

Entre as alterações que devem ser comunicadas ao médico estão:

  • Sonolência ou cansaço fora do habitual: sono durante o dia, falta de disposição ou dificuldade para manter a atenção nas atividades da rotina.
  • Náuseas ou diarreia persistentes: desconfortos digestivos que prejudicam a alimentação ou o dia a dia.
  • Tremores: aparecimento ou aumento de tremores, especialmente nas mãos.
  • Mudanças no humor: piora da ansiedade, inquietação ou irritabilidade que surgem ou se intensificam após uma mudança no tratamento.
  • Sinais no fígado: pele ou olhos amarelados, urina escura ou dor no lado direito do abdômen.

Confusão mental, fraqueza intensa, dificuldade para caminhar, pele ou olhos amarelados e urina escura precisam de avaliação médica rápida.

Como é feito o acompanhamento do uso de CBD com sertralina?

O acompanhamento médico ajuda a avaliar como você responde ao uso de CBD com sertralina e se há necessidade de ajustar o tratamento. Para isso, o profissional considera as doses, o histórico de saúde e os outros medicamentos em uso.

Em geral, o médico inicia o CBD em dose baixa e aumenta aos poucos, conforme a resposta e a tolerância ao tratamento. Ele também pode orientar que os ajustes do CBD e da sertralina sejam feitos em momentos diferentes, facilitando a identificação de possíveis efeitos.

Nas consultas, conte como você está se sentindo e informe se começou a usar algum medicamento ou suplemento. Caso troque o produto de cannabis, avise também: a concentração de CBD e a presença de THC podem variar entre as formulações.

Dependendo da dose utilizada e do seu histórico de saúde, o médico poderá solicitar exames para acompanhar o funcionamento do fígado.

No dia a dia, siga a prescrição e comunique qualquer mudança no bem-estar.

Quando evitar a combinação ?

Em algumas situações, a combinação de CBD com sertralina pede cautela redobrada ou deve ser evitada. Fazer parte de um desses grupos não significa, necessariamente, que o uso conjunto esteja descartado, mas que a decisão precisa ser individualizada e tomada com o médico.

  • Doença no fígado: como o fígado processa tanto a sertralina quanto o CBD, alterações no seu funcionamento podem aumentar a concentração das duas substâncias. Além disso, o CBD pode elevar as enzimas hepáticas.
  • Uso de outros medicamentos que interagem: remédios processados pela mesma enzima, como o omeprazol e o clobazam, podem ter sua concentração alterada pelo CBD. Quem usa anticoagulantes ou antiplaquetários também precisa de atenção, já que a sertralina pode aumentar o risco de sangramento e o CBD pode alterar o efeito de alguns desses medicamentos.
  • Gestação e amamentação: o uso de CBD não é recomendado nessas fases, por falta de dados sobre a segurança para o bebê. A sertralina, por outro lado, pode ser mantida quando indicada e não deve ser interrompida por conta própria.
  • Transtorno bipolar ou histórico de psicose: antidepressivos podem desencadear episódios de euforia em pessoas com transtorno bipolar, e produtos com THC podem agravar sintomas psicóticos.

Idosos, adolescentes e pessoas que já sabem ter a enzima CYP2C19 funcionando mais devagar também se beneficiam de um acompanhamento mais próximo.

Conclusão

Combinar CBD com sertralina é possível, mas não deve ser feito por conta própria. O canabidiol pode interferir na forma como o fígado processa o antidepressivo, e fatores como a dose, o tipo de extrato, a qualidade do produto e as características de cada pessoa influenciam o resultado dessa combinação.

Com orientação médica, doses ajustadas com cuidado, acompanhamento dos sintomas e produtos com laudo de análise do lote, os riscos podem ser reduzidos e eventuais efeitos, identificados cedo. Sem esse cuidado, a combinação se torna menos previsível e o risco aumenta sem necessidade. Por isso, antes de iniciar o CBD, ou de fazer qualquer mudança no tratamento, o primeiro passo é conversar com o médico.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

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Dúvidas frequentes

Tomar CBD e sertralina em horários diferentes evita a interação?

Não necessariamente. O CBD permanece no organismo por horas, e sua influência sobre as enzimas do fígado não termina quando a dose é absorvida. Por isso, separar os horários não garante que a interação seja evitada e não substitui a avaliação das doses e o acompanhamento médico.

Um óleo de CBD mais concentrado apresenta maior risco de interação?

A concentração, sozinha, não determina o risco. O que importa é quanto CBD a pessoa utiliza por tomada e ao longo do dia. Um óleo concentrado usado em pequeno volume pode fornecer a mesma dose que um óleo menos concentrado usado em maior quantidade.

Quanto tempo depois de começar o CBD uma interação pode aparecer?

Não há um prazo fixo. Eventuais efeitos costumam ser percebidos nos primeiros dias ou semanas após iniciar o CBD ou aumentar a dose, à medida que as substâncias se acumulam no organismo. Por isso, vale observar com mais atenção esse período inicial e anotar qualquer mudança para relatar ao médico. Agitação intensa, febre, suor excessivo, rigidez muscular ou batimentos acelerados, principalmente quando aparecem juntos, exigem atendimento médico rápido.

É necessário reduzir a sertralina pela metade ao começar o CBD?

Não. Não existe uma regra de redução automática para essa combinação. Em pessoas que já sabem ter a enzima CYP2C19 funcionando mais devagar, o médico pode considerar ajustes, mas isso não se aplica a todos que iniciam o CBD. Qualquer mudança na dose depende de avaliação médica.

Posso consumir bebidas alcoólicas usando CBD e sertralina?

O ideal é evitar. Tanto a sertralina quanto o CBD podem causar sonolência e tontura, e o álcool tende a intensificar esses efeitos. Além disso, o álcool pode piorar sintomas de ansiedade e depressão, o que atrapalha a avaliação do próprio tratamento.

O canabidiol pode substituir a sertralina no tratamento da ansiedade ou da depressão?

O CBD não substitui a sertralina. As evidências científicas e as indicações dos dois tratamentos são diferentes. Uma eventual mudança precisa ser planejada com o médico, e a sertralina não deve ser interrompida por conta própria, já que a suspensão repentina pode causar sintomas de abstinência e favorecer o retorno do quadro.

Quais informações sobre o óleo de cannabis devo levar à consulta?

Leve o nome do produto, o fabricante, a concentração de CBD e de THC, o volume utilizado por tomada e a frequência de uso. Se possível, apresente também o laudo de análise do lote e uma lista dos demais medicamentos e suplementos que você usa. Essas informações ajudam o médico a avaliar a combinação com mais precisão.

Referências

ANDERSON, L. L. et al. Citalopram and cannabidiol: in vitro and in vivo evidence of pharmacokinetic interactions relevant to the treatment of anxiety disorders in young people. Journal of Clinical Psychopharmacology, v. 41, n. 5, p. 525–533, 2021

BANSAL, S. et al. Evaluation of cytochrome P450-mediated cannabinoid-drug interactions in healthy adult participants. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, n. 3, p. 693–703, 2023.

BOUSMAN, C. A. et al. Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC) guideline for CYP2D6, CYP2C19, CYP2B6, SLC6A4, and HTR2A genotypes and serotonin reuptake inhibitor antidepressants. Clinical Pharmacology & Therapeutics, v. 114, n. 1, p. 51–68, 2023.

NANAN, J. C.; CROSBY, S.; SCHUH, M. J. Hyponatremic cognitive dysfunction resulting from drug-drug-gene interaction between sertraline and cannabidiol in an intermediate CYP2C19 metabolizer patient. Innovations in Pharmacy, v. 13, n. 3, 2022.

Contribuidores:

Andrea Vieira

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