Neste artigo,você vai entender em quais casos o CBD pode ser considerado no tratamento infantil, como ele age no organismo, como a dose é definida e quais cuidados a família precisa ter durante o uso.

- O CBD tem uso aprovado em epilepsias graves da infância, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut.
- A dose leva em conta o peso da criança e começa baixa, com aumentos graduais.
- Duas marcas diferentes podem ter quantidades muito distintas de CBD no mesmo número de gotas.
- O CBD pode interagir com alguns medicamentos, como anticonvulsivantes.
O canabidiol jáfaz parte da rotina de muitos neurologistas e pediatras, com medicamentos aprovados por agências reguladoras e produtos autorizados pela Anvisa. Na epilepsia infantil, especialmente nos casos que não respondem bem aos tratamentos convencionais, ele tem eficácia comprovada em estudos clínicos.
Para aproveitar esses benefícios com segurança, é importante saber para quais condições ele é indicado e como o tratamento é conduzido.
Quando o CBD pode ser considerado no tratamento pediátrico?
O canabidiol (CBD) pode ser considerado quando a criança apresenta sintomas que continuam difíceis de controlar apesar dos tratamentos já utilizados, ou quando esses tratamentos causam efeitos indesejados importantes. A decisão depende da condição da criança, do que já foi tentado e do objetivo que se espera alcançar com o CBD.
Veja abaixo as principais situações em que ele pode fazer parte do tratamento:
1.Epilepsias de difícil controle (refratárias)
O CBD isolado, sem THC, já é utilizado como medicamento para reduzir crises associadas às síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut e ao complexo de esclerose tuberosa. Ele é acrescentado aos anticonvulsivantes que a criança já utiliza. O medicamento é chamado Epidiolex nos Estados Unidos e Epidyolex na União Europeia.
2. Sintomas comportamentais associados ao autismo
O canabidiol (CBD) pode ser utilizado como tratamento complementar para crianças com transtorno do espectro autista (TEA), especialmente quando a irritabilidade, a agitação ou a agressividade afetam sua rotina. O CBD não cura o autismo: seu uso busca aliviar sintomas específicos e melhorar a qualidade de vida da criança e de sua família.
3. Distúrbios do sono
A insônia, o despertar noturno frequente e a dificuldade para pegar no sono afetam profundamente o neurodesenvolvimento infantil e o bem-estar de toda a dinâmica familiar. O CBD trata as causas subjacentes que atrapalham o sono, como a ansiedade, dores crônicas, agitação psicomotora e desregulação sensorial, melhorando a qualidade do sono.
4. Ansiedade
A ansiedade infantil pode aparecer como medo intenso, crises de pânico, dificuldade de se separar dos responsáveis, mutismo seletivo ou agitação. Em alguns casos, o médico utiliza o CBD como parte do tratamento, especialmente quando os sintomas prejudicam a rotina da criança e as opções habituais não trouxeram a melhora esperada ou causaram efeitos difíceis de tolerar.
Além dessas aplicações, diferentes canabinoides também são utilizados ou avaliados para espasticidade, distúrbios do movimento, dor persistente e alívio de sintomas em cuidados paliativos pediátricos.
Como o CBD funciona no organismo das crianças?
O CBD atua em diferentes processos do organismo. Ele influencia a comunicação entre as células e mecanismos relacionados ao sono, ao humor, ao apetite, à percepção da dor e à resposta inflamatória.
Uma das redes com as quais o CBD interage é o sistema endocanabinoide, formado por receptores, enzimas e substâncias produzidas pelo próprio corpo. O CBD influencia o funcionamento desse sistema e também atua em outros pontos do organismo. Por isso, seus efeitos não dependem de um único mecanismo.
Essa atuação ocorre tanto em crianças quanto em adultos. Na infância, porém, a idade, o peso, a fase de desenvolvimento e o uso de outros medicamentos podem alterar a forma como o corpo absorve e responde ao canabinoide. Por esse motivo, a dose é definida para cada criança e ajustada ao longo do acompanhamento médico.
Como a dose de CBD é definida para crianças?
A dose de CBD é definida individualmente pelo médico. Não existe uma quantidade adequada para todas as crianças, mesmo quando elas têm o mesmo diagnóstico. A prescrição considera:
- o peso e a idade da criança;
- a condição tratada;
- a intensidade e a frequência dos sintomas;
- os medicamentos que ela já utiliza;
- a resposta ao CBD ao longo do tratamento;
- a ocorrência de efeitos indesejados.
O médico também considera qual produto será utilizado e sua concentração. Dois óleos podem ter quantidades diferentes de CBD em cada gota; por isso, o número de gotas, sozinho, não informa a dose recebida. O cálculo é feito com base na quantidade de CBD em miligramas e, quando aplicável, no peso da criança.
Em geral, o tratamento começa com uma dose baixa, ajustada aos poucos conforme os resultados observados. Esse processo recebe o nome de titulação.
Como funciona a titulação do CBD?
A titulação permite ajustar gradualmente a dose de canabidiol, observando se os sintomas melhoram e se a criança apresenta efeitos indesejados. O ritmo dos ajustes depende da condição tratada, do produto utilizado e da resposta da criança.
Esse processo costuma seguir algumas etapas, entre elas:
1.O início do tratamento. O médico define a dose inicial e orienta como administrá-la. Nessa etapa, a família começa a observar os sintomas que motivaram o tratamento, sem esperar necessariamente que a resposta desejada apareça logo nas primeiras doses.
2.O período de observação. Antes de aumentar a quantidade, é preciso avaliar como a criança reagiu à dose em uso. O intervalo entre os ajustes é definido pelo médico. Mudanças muito rápidas podem dificultar a identificação da dose que trouxe benefício ou provocou algum efeito indesejado.
3. Os ajustes graduais. A partir da resposta da criança, o médico orienta quando aumentar a dose, mantê-la ou reduzi-la. Se houver troca de produto, a quantidade de gotas precisa ser revista: óleos com concentrações diferentes podem fornecer quantidades diferentes de CBD em cada gota.
4.O registro diário. Anotar as doses e o que aconteceu ao longo do dia ajuda a acompanhar o tratamento. Dependendo da condição da criança, vale registrar a frequência das crises, o sono, o humor, o comportamento, o apetite e qualquer efeito indesejado. Essas informações permitem comparar os períodos antes e depois de cada ajuste.
5. A definição da dose adequada. Depois dos ajustes, o médico identifica a quantidade de CBD que traz melhora consistente dos sintomas e é bem tolerada pela criança. Essa dose passa a orientar a continuidade do tratamento, mas pode ser revista conforme sua evolução.
O CBD precisa ficar sob a língua ou a criança pode engolir?
Depende da orientação para o produto prescrito e da capacidade da criança de seguir esse modo de uso. Se ela consegue manter o óleo sob a língua pelo tempo indicado, essa pode ser uma opção. Se engole o líquido imediatamente, a administração ocorre principalmente pela via digestiva. Mesmo quando o óleo é colocado sob a língua, parte dele pode acabar sendo engolida; por isso, não se deve presumir que o efeito será mais rápido.
Na prática, o cuidado principal é medir e oferecer a dose prescrita corretamente. Os responsáveis devem conferir se a receita indica a quantidade em gotas ou em mililitros e usar o dosador orientado para aquele produto. Se o sabor dificultar a administração, vale conversar com o médico ou farmacêutico antes de misturar o CBD a algum alimento.
Também é importante manter uma rotina em relação às refeições. Administrar o CBD ora em jejum, ora após comer pode alterar a quantidade absorvida e dificultar a avaliação da resposta da criança.
O CBD pode causar efeitos colaterais em crianças?
Sim. Nem toda criança apresenta efeitos colaterais, mas é importante observar sua reação ao CBD, principalmente no início do tratamento e após cada ajuste de dose. Nos estudos com canabidiol purificado para epilepsia, foram relatados sonolência, cansaço, diminuição do apetite e diarreia.
O CBD também pode alterar os níveis das enzimas do fígado, algo que é identificado por exames de sangue. Se a criança ficar muito sonolenta, tiver diarreia persistente, perder o apetite ou apresentar outra mudança que preocupe a família, os responsáveis devem avisar o médico. A dose não deve ser alterada por conta própria.
Interações medicamentosas do CBD em crianças
O CBD pode interagir com medicamentos que a criança já utiliza. Isso acontece porque ele pode alterar a forma como o organismo processa alguns remédios, modificando seus efeitos ou aumentando o risco de reações indesejadas.
Um exemplo é o clobazam, usado no tratamento de epilepsias. Quando administrado com CBD, a sonolência pode se tornar mais intensa. Já a combinação com valproato exige atenção aos exames do fígado, pois aumenta a chance de alterações nas enzimas hepáticas.
Essas interações não impedem necessariamente o uso conjunto dos medicamentos. O médico avaliará a resposta da criança e, quando necessário, solicitará exames ou ajustará as doses. Por isso, os responsáveis devem informar todos os medicamentos, vitaminas e suplementos que ela utiliza, inclusive aqueles iniciados durante o tratamento com CBD.
Conclusão
O uso de CBD em crianças exige mais do que a escolha de um produto e de uma dose. É preciso partir de um diagnóstico, conhecer a composição e a concentração do produto utilizado e acompanhar a resposta da criança ao longo do tratamento. Esse acompanhamento permite avaliar se os sintomas melhoraram, se surgiram efeitos indesejados e se a dose precisa ser ajustada.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

Agende sua consulta
Agende sua primeira consulta na Click por apenas R$50 e converse com nossos médicos especialistas hoje mesmo.
Click Cannabis:Dúvidas frequentes
O canabidiol medicinal pode deixar meu filho “chapado” ou causar dependência?
O CBD puro não causa a “brisa” associada ao THC e não demonstrou potencial de dependência. Confira com o médico se o produto prescrito contém THC.
Como saber se a sonolência ou a diarreia do meu filho pode estar relacionada ao CBD?
Observe se os sintomas começaram após o início do uso ou um ajuste da dose e informe o médico, especialmente se forem intensos ou persistentes.
Meu filho usa clobazam ou valproato. Ele precisa parar esses remédios para tomar CBD?
Não necessariamente. O médico pode manter a combinação, acompanhar a sonolência e solicitar exames do fígado. Não interrompa os anticonvulsivantes por conta própria.
O que devo conferir antes de comprar o óleo de CBD prescrito para meu filho?
Confira se a concentração de CBD e a presença de THC correspondem à receita. Verifique também o fabricante, o lote, a validade e a procedência do produto.
O CBD funciona para todas as crianças com transtorno do espectro autista?
Não. A resposta varia, e os estudos ainda não permitem prever quais crianças terão benefício. Se houver prescrição, acompanhe com o médico os sintomas que se pretende melhorar.
O que fazer se meu filho cuspir, vomitar ou ingerir CBD além da dose prescrita?
Se cuspir ou vomitar, não repita a dose sem orientação. Se ingerir uma quantidade maior, procure atendimento médico; dificuldade para acordá-lo ou respirar exige urgência.
O uso prolongado de CBD pode afetar o crescimento ou o desenvolvimento do meu filho?
Ainda faltam dados para esclarecer os efeitos do uso prolongado sobre o desenvolvimento infantil. Por isso, o médico deve acompanhar o crescimento e a evolução da criança durante o tratamento.
Referências
MURNI, W.; UMAR, T. P.; TANDARTO, K.; SIMATUPANG, A.; HASUGIAN, A. R.; PURWOKO, R. Y.; IDAIANI, S.; STEVANNY, B.; OKTARINA, C.; JONLEAN, R.; TANGO, T.; KUSUMA, K. S.; SUGIYONO, S. P.; PUTRA, A. Efficacy and safety of medical cannabinoids in children with cerebral palsy: a systematic review. Einstein (São Paulo), São Paulo, v. 21, eRW0387, 2023.
PARRELLA, N. F.; HILL, A. T.; ENTICOTT, P. G.; BOTHA, T.; CATCHLOVE, S.; DOWNEY, L.; FORD, T. C. Effects of cannabidiol on social relating, anxiety, and parental stress in autistic children: a randomized controlled crossover trial. Autism Research, [s. l.], v. 19, n. 2, e70159, 2026.
TRAUNER, D.; UMLAUF, A.; GRELOTTI, D. J.; FITZGERALD, R.; HANNAWI, A.; MARCOTTE, T. D.; KNIGHT, C.; SMITH, L.; PAEZ, G.; CROWHURST, J.; BROWN, A.; SUHANDYNATA, R. T.; LUND, K.; MENLYADIEV, M.; GRANT, I. Cannabidiol (CBD) treatment for severe problem behaviors in autistic boys: a randomized clinical trial. Journal of Autism and Developmental Disorders, [s. l.], publicação antecipada, 24 maio 2025.




