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Cannabis e Parkinson: Estudo Brasileiro com 68 Pacientes Mostra Melhora nos Sintomas

12/03/2026
7 min de leitura
Cannabis e Parkinson: Estudo Brasileiro com 68 Pacientes Mostra Melhora nos Sintomas cover image

A ciência brasileira avança na pesquisa sobre cannabis medicinal e doenças neurodegenerativas. Um ensaio clínico conduzido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) investigou os efeitos da combinação de canabidiol (CBD) e tetraidrocanabinol (THC) em 68 pacientes com Doença de Parkinson ao longo de seis meses, com resultados que apontam melhora em sintomas motores, ansiedade e qualidade de vida.

Liderado pela pesquisadora Dra. Ana Carolina Ruver Martins, sob orientação do Prof. Dr. Rui Daniel Prediger, o estudo é um dos maiores ensaios clínicos randomizados já realizados no Brasil sobre o uso de canabinoides no Parkinson, e posiciona o país como referência na pesquisa com cannabis medicinal aplicada à neurologia.

O que é a Doença de Parkinson e quem ela afeta?

A Doença de Parkinson é o segundo distúrbio neurodegenerativo mais prevalente no mundo, ficando atrás apenas da doença de Alzheimer.

Estudos globais e dados do Ministério da Saúde confirmam que a doença afeta aproximadamente 1% da população acima de 65 anos. A prevalência aumenta progressivamente com o envelhecimento: enquanto na faixa dos 60 anos o índice gira em torno de 1%, ele pode chegar a 3% ou mais em indivíduos com mais de 80 anos.

Estima-se que cerca de 200 mil pessoas convivam com o Parkinson no Brasil, sendo a idade o principal fator de risco para o desenvolvimento da condição.

A Doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa, progressiva e crônica que afeta principalmente o sistema motor. Ela ocorre devido à morte prematura de neurônios em uma região específica do cérebro chamada substância negra.

Esses neurônios são responsáveis pela produção de dopamina, um neurotransmissor essencial que atua como mensageiro químico, ajudando o cérebro a controlar os movimentos voluntários e automáticos do corpo. Quando os níveis de dopamina caem significativamente, o controle motor fica comprometido.

Sintomas motores:

  • Tremores: frequentemente ocorrem em repouso (conhecido como "tremor de contar moedas").
  • Bradicinesia: lentidão anormal dos movimentos, tornando tarefas simples muito demoradas.
  • Rigidez muscular: tensão nos músculos que pode causar dor e limitar a amplitude de movimento.
  • Instabilidade postural: dificuldade de equilíbrio e coordenação, aumentando o risco de quedas.

Sintomas não motores:

  • Diminuição do olfato (hiposmia).
  • Distúrbios do sono e constipação intestinal.
  • Depressão, ansiedade e, em estágios avançados, alterações cognitivas.

Qual é o tratamento inicial para a Doença de Parkinson?

O tratamento inicial é individualizado e tem como principal objetivo controlar os sintomas motores e preservar a funcionalidade do paciente, uma vez que ainda não existe cura para a doença.

A levodopa é considerada o tratamento padrão-ouro. Trata-se da medicação mais eficaz para controlar sintomas motores como bradicinesia e rigidez muscular.

Embora altamente eficaz no controle inicial, o tratamento apresenta limitações ao longo do tempo:

  • Redução progressiva da eficácia terapêutica ao longo dos anos.
  • Surgimento de discinesias (movimentos involuntários).
  • Menor eficácia no controle de sintomas não motores, como alterações do sono, ansiedade e depressão.

Essas limitações têm estimulado a comunidade científica a investigar abordagens complementares, incluindo o uso de canabinoides.

Por que a cannabis desperta interesse na pesquisa sobre Parkinson?

O interesse científico pela cannabis no contexto do Parkinson está relacionado ao sistema endocanabinoide, um complexo sistema de sinalização biológica presente no cérebro e em diversos tecidos do organismo.

Esse sistema é formado por receptores canabinoides (principalmente CB1 e CB2), endocanabinoides produzidos pelo próprio corpo e enzimas responsáveis por sua síntese e degradação. Em conjunto, esses elementos participam da regulação de funções diretamente envolvidas na fisiopatologia do Parkinson:

  • Controle motor: regulação dos movimentos voluntários nos gânglios da base.
  • Neuroproteção: possível proteção dos neurônios dopaminérgicos contra estresse oxidativo.
  • Modulação inflamatória: controle da neuroinflamação no sistema nervoso central.
  • Equilíbrio neuroquímico: regulação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e anandamida.

Como foi realizado o estudo da UFSC sobre cannabis e Parkinson?

A pesquisa conduzida pela UFSC investigou se a combinação de CBD e THC poderia ajudar pessoas com Doença de Parkinson. O estudo foi realizado com 68 pacientes, divididos em dois grupos:

  • 38 pacientes receberam a combinação de CBD e THC.
  • 30 pacientes receberam placebo (substância sem efeito terapêutico).

Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quem estava recebendo o tratamento verdadeiro ou o placebo (estudo duplo-cego), método que garante resultados mais confiáveis.

Detalhes do tratamento:

  • Dose: 50 mg de CBD + 5 mg de THC por dia
  • Via de administração: oral
  • Duração: 6 meses
  • Locais: Florianópolis e Rio do Sul (SC)

Os pesquisadores avaliaram sintomas motores, ansiedade, depressão, qualidade de vida e marcadores sanguíneos relacionados à inflamação e saúde neuronal.

Resultados do estudo: cannabis e sintomas do Parkinson

Os resultados indicaram que a combinação de CBD e THC pode trazer benefícios em diferentes aspectos da saúde dos pacientes.

Redução da ansiedade

Um dos achados mais importantes foi a redução significativa dos sintomas de ansiedade, medida pelo Inventário de Ansiedade de Beck (BAI). O efeito foi mais evidente entre as mulheres, sugerindo possíveis diferenças na resposta ao tratamento entre os sexos.

Melhora em sintomas motores

Os pacientes tratados apresentaram tendência de melhora em sintomas motores, incluindo diminuição dos tremores, redução da rigidez muscular e movimentos mais fluidos e coordenados.

Melhora na qualidade de vida

Muitos participantes relataram mais disposição para atividades diárias, melhor qualidade do sono e redução de queixas relacionadas ao humor.

Segurança do tratamento

O tratamento foi bem tolerado. Os efeitos adversos foram classificados como leves a moderados, e nenhum evento grave foi registrado.

Por que a combinação de CBD e THC é promissora para o Parkinson?

Os resultados reforçam o conceito de "efeito conjunto" dos canabinoides: quando compostos da cannabis são usados juntos, podem funcionar melhor do que separadamente.

O papel do CBD (canabidiol) — 50 mg/dia no estudo:

  • Ação anti-inflamatória no cérebro.
  • Efeito ansiolítico (redução da ansiedade).
  • Proteção dos neurônios contra estresse oxidativo.
  • Não provoca efeitos psicoativos.

O papel do THC (tetraidrocanabinol) — 5 mg/dia no estudo:

  • Relaxamento muscular, ajudando a reduzir rigidez e espasmos.
  • Alívio da dor.
  • Melhora do sono.
  • Em doses baixas, efeitos psicoativos mínimos ou pouco perceptíveis.

A proporção utilizada foi de 10:1 (CBD:THC), frequentemente adotada em protocolos médicos por potencializar os efeitos terapêuticos e reduzir possíveis efeitos adversos.

O que ainda precisa ser estudado?

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que novos estudos são necessários:

  • Diferenças entre homens e mulheres: entender por que mulheres podem apresentar maior melhora na ansiedade.
  • Doses ideais: avaliar se outras proporções de CBD e THC trazem resultados ainda melhores.
  • Efeitos a longo prazo: investigar os efeitos além de seis meses.
  • Interação medicamentosa: compreender melhor como os canabinoides interagem com a levodopa e outros fármacos.
  • Estudos maiores: pesquisas com mais participantes e em diferentes centros médicos.

Conclusão

Os resultados do estudo da UFSC indicam que a combinação de CBD e pequenas doses de THC pode trazer benefícios para pessoas com Doença de Parkinson, especialmente na redução da ansiedade, melhora de sintomas motores e qualidade de vida.

Embora os achados sejam promissores, ainda são necessários novos estudos com mais pacientes e acompanhamento por períodos mais longos para confirmar esses efeitos.

A cannabis medicinal surge como uma possível terapia complementar, que pode contribuir para o manejo da doença quando utilizada com acompanhamento médico e integrada aos tratamentos convencionais.

Para saber mais sobre como ter acesso à cannabis medicinal no Brasil, consulte nosso guia completo.

Referências

  • PEREIRA, G. M.; SOARES, N. M.; BRUSCATO, N. M.; et al. Prevalence and incidence of Parkinson's disease and other forms of parkinsonism in a cohort of elderly individuals in Southern Brazil. BMJ Open, v. 11, e054423, 2021.
  • RUVER-MARTINS, Ana Carolina; et al. Low doses of cannabis extract ameliorate non-motor symptoms of Parkinson's disease patients: a case series. Frontiers in Human Neuroscience, v. 18, p. 1-12, 2025.
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Contribuidores:

Andrea Vieira

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