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Cannabis Medicinal para TDAH, Depressão e Cicatrização: Novos Estudos Brasileiros

12/03/2026
6 min de leitura
Cannabis Medicinal para TDAH, Depressão e Cicatrização: Novos Estudos Brasileiros cover image

A pesquisa com cannabis medicinal no Brasil está ultrapassando os limites do CBD e do THC. Pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) investigam, desde o primeiro semestre de 2026, o potencial de canabinoides menos conhecidos no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), da depressão e de feridas crônicas em pacientes com diabetes.

Os estudos são conduzidos pelo Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC), sob coordenação do Prof. Dr. Rafael Mariano de Bitencourt, e contam com parceria das associações Santa Cannabis e Cannabis Sem Fronteiras, que fornecem os insumos para os testes.

CBG, THCV e CBN: a nova geração de canabinoides medicinais

A cannabis possui mais de 100 fitocanabinoides identificados. Durante décadas, a ciência concentrou esforços em dois deles: o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC). Agora, pesquisadores voltam a atenção para compostos com perfis farmacológicos distintos e ainda pouco explorados.

CBG (Canabigerol)

  • Considerado o "canabinoide-mãe", pois é precursor biossintético do CBD e do THC.
  • Estudos pré-clínicos indicam propriedades neuroprotetoras, anti-inflamatórias e antibacterianas.
  • Não possui efeitos psicoativos.
  • Apresenta afinidade com receptores CB1 e CB2, além de interagir com receptores adrenérgicos e serotoninérgicos.

THCV (Tetrahidrocanabivarina)

  • Estruturalmente similar ao THC, mas com efeitos farmacológicos distintos.
  • Em baixas doses, atua como antagonista do receptor CB1 (efeito oposto ao THC).
  • Pesquisas investigam seu potencial na regulação metabólica e modulação cognitiva.
  • Pode ter propriedades ansiolíticas sem efeitos sedativos significativos.

CBN (Canabinol)

  • Produto de degradação do THC, com efeitos psicoativos mínimos.
  • Estudos preliminares sugerem propriedades sedativas e analgésicas.
  • Interesse crescente como auxiliar no tratamento de distúrbios do sono.

Como explica o Prof. Rafael de Bitencourt: "Durante muitos anos, a pesquisa com Cannabis medicinal se concentrou quase exclusivamente no THC e no CBD. No entanto, estamos começando a compreender melhor que a planta possui diversos outros fitocanabinoides biologicamente ativos."

Cannabis e TDAH: o que os pesquisadores estão investigando?

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) afeta cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos em todo o mundo, segundo a OMS. É um transtorno neuropsiquiátrico caracterizado por dificuldade de concentração, impulsividade, hiperatividade e dificuldade de organização.

O tratamento convencional e suas limitações

O manejo padrão inclui estimulantes como metilfenidato (Ritalina) e anfetaminas (Venvanse). Embora eficazes para muitos, essas medicações podem causar insônia, perda de apetite, ansiedade e efeito rebote. Estima-se que 20% a 30% dos pacientes não respondem adequadamente.

O que o LabNeC investiga sobre CBG e TDAH

O LabNeC da UniSul investiga se o CBG pode influenciar mecanismos neurológicos envolvidos na atenção, controle de impulsos e regulação emocional. A hipótese é que a interação do CBG com receptores serotoninérgicos e adrenérgicos possa modular dopamina e noradrenalina, neurotransmissores diretamente envolvidos no TDAH.

Os estudos ainda estão em fases iniciais, e os pesquisadores ressaltam que não há evidência clínica suficiente para recomendar o uso de canabinoides no TDAH. No entanto, os resultados pré-clínicos justificam a investigação mais aprofundada.

Cannabis e depressão: como o sistema endocanabinoide atua?

A depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas globalmente (OMS). No Brasil, a prevalência é de aproximadamente 5,8% da população, uma das maiores da América Latina.

Por que o sistema endocanabinoide importa na depressão

O sistema endocanabinoide desempenha papel central na regulação emocional, modulando:

  • Resposta ao estresse: regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA).
  • Humor e motivação: modulação de serotonina e dopamina.
  • Neuroplasticidade: capacidade do cérebro de formar novas conexões.
  • Sono e ritmo circadiano: regulação dos ciclos de vigília e descanso.

Pesquisas indicam que pacientes com depressão frequentemente apresentam deficiências no tônus endocanabinoide, sugerindo que a modulação desse sistema pode ter efeito terapêutico.

O que o LabNeC investiga sobre canabinoides e depressão

O laboratório amplia a investigação para incluir CBG e THCV, buscando identificar se esses compostos podem reduzir sintomas depressivos de forma mais direcionada, oferecer alternativas para pacientes refratários e atuar com menor latência que os antidepressivos tradicionais (que levam 2 a 4 semanas para fazer efeito).

Cannabis e cicatrização de feridas diabéticas: nova fronteira

O problema clínico do pé diabético

O diabetes afeta cerca de 16,8 milhões de brasileiros. Uma de suas complicações mais debilitantes é a dificuldade de cicatrização, particularmente nos membros inferiores. Feridas como o pé diabético podem persistir por meses, evoluir para infecções graves e resultar em amputações.

O que a ciência já sabe sobre CBD e cicatrização

Estudos publicados no International Journal of Molecular Sciences (Shah et al., 2024) e Health Science Reports (Parikh et al., 2024) demonstram que canabinoides possuem propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, pró-angiogênicas e de regulação da reparação celular.

O diferencial da pesquisa da UniSul

O estudo será conduzido no próprio território de atuação de um dos pesquisadores, um enfermeiro paraibano que trabalha no cuidado de feridas crônicas em comunidades vulneráveis. Como destaca o Prof. Rafael: "Essa escolha aproxima a universidade, a pesquisa e as demandas reais do sistema de saúde."

Medicina personalizada com cannabis: cada paciente, um protocolo

Um princípio fundamental da cannabis medicinal é a individualização do tratamento. O uso de canabinoides exige ajustes precisos de composição, proporção, dose, via de administração e monitoramento contínuo. Essa abordagem dialoga com a medicina de precisão, que valoriza o cuidado centrado no paciente.

Para saber mais sobre como ter acesso à cannabis medicinal, consulte nosso guia completo.

Desafios da pesquisa com cannabis no Brasil

Apesar do crescente interesse científico, pesquisadores enfrentam obstáculos: regulação rigorosa (Anvisa + Comitês de Ética), padronização dos insumos, financiamento limitado e estigma social. Mesmo assim, universidades como UFSC, UniSul, USP e UFMG têm produzido pesquisas relevantes.

O que esperar dos próximos anos

As investigações do LabNeC/UniSul podem contribuir para novos protocolos clínicos para TDAH refratário, terapias complementares para depressão com menos efeitos colaterais, tratamentos tópicos inovadores para feridas diabéticas e atualização de diretrizes clínicas.

Como conclui o Prof. Rafael de Bitencourt: "Embora mudanças em políticas públicas sejam processos lentos, pesquisas bem conduzidas ajudam a construir um caminho baseado em evidências, responsabilidade e compromisso com a saúde da população brasileira."

O tratamento com cannabis medicinal deve sempre ser realizado com prescrição e acompanhamento médico, dentro das regulamentações sanitárias vigentes.

Referências

  • Shah, A. et al. (2024). Cannabinoids and wound healing. International Journal of Molecular Sciences.
  • Parikh, N. et al. (2024). Cannabis-based therapeutics for chronic wounds. Health Science Reports.
  • Cooper, R.E. et al. (2017). Cannabinoids in attention-deficit/hyperactivity disorder. European Neuropsychopharmacology, 27(8), 795-808.
  • Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul). Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC).
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Andrea Vieira

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