Neste artigo, você vai entender o que um estudo piloto descobriu sobre o uso do canabidiol no controle da dor e na redução do consumo de opioides após a artroplastia total bilateral de joelho.

- Por que a artroplastia total bilateral de joelho foi escolhida para testar novos analgésicos.
- Por que o estudo é o primeiro a avaliar o canabidiol aprovado pela FDA, o Epidiolex®, em cirurgias ortopédicas.
- Como funciona um estudo randomizado e triplo-cego, em que nem pacientes, nem médicos, nem analistas sabem quem recebeu canabidiol ou placebo.
- Qual dose de canabidiol reduziu o consumo de opioides e qual não trouxe benefício.
O uso de canabidiol (CBD) tem crescido entre pacientes, inclusive entre os que passam por cirurgias ortopédicas, muitas vezes sem orientação médica. Apesar da popularidade, ainda faltam evidências de qualidade sobre a eficácia, a dose adequada, a segurança e a tolerabilidade do composto no contexto cirúrgico. Sem esses dados, médicos têm dificuldade em orientar seus pacientes e combater a desinformação.
Para preencher parte dessa lacuna, pesquisadores do Hospital for Special Surgery e da Weill Cornell Medicine, em Nova York, investigaram se o CBD de grau farmacêutico poderia melhorar o controle da dor no pós-operatório e reduzir a necessidade de opioides. Os resultados foram publicados online em 22 de outubro de 2026 no The Journal of Pain.
O que torna essa pesquisa pioneira?
Esse é o primeiro estudo publicado a avaliar a formulação de CBD aprovada pela FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, em cirurgias ortopédicas. Trata-se do Epidiolex®, solução oral hoje indicada para crises convulsivas associadas à síndrome de Lennox-Gastaut, à síndrome de Dravet e ao complexo de esclerose tuberosa. Seu uso para dor pós-operatória é off-label, ou seja, fora das indicações aprovadas, e ainda experimental.
A diferença é importante: o mercado oferece uma grande variedade de produtos de CBD, muitos sem composição padronizada e com pureza variável, o que dificulta saber o que de fato está sendo testado.
A escolha do tipo de cirurgia também não foi por acaso. Pacientes ortopédicos estão entre os que têm maior risco de dor intensa no pós-operatório e de uso prolongado de opioides. A artroplastia total bilateral de joelho, em que as duas articulações são substituídas no mesmo procedimento, exige doses elevadas desses medicamentos e implica internações mais longas. Isso faz dela um cenário ideal para testar um analgésico alternativo em ambiente controlado. Além disso, um controle adequado da dor favorece a mobilização precoce, a adesão à fisioterapia e uma alta hospitalar mais rápida.
Os pesquisadores partiram de estudos em animais que sugerem efeitos do CBD sobre a dor e a inflamação, além de pesquisas indicando que o Epidiolex® não tem potencial de abuso. A hipótese era de que, em comparação com o placebo, o CBD reduziria o consumo de opioides, os escores de dor e os níveis de interleucina-6 (um marcador inflamatório), além de melhorar o sono e diminuir a ansiedade, sem efeitos adversos graves.
Metodologia e desenho experimental do estudo
Trata-se de um estudo piloto randomizado, controlado, paralelo e triplo-cego. Cada um desses termos indica uma característica da pesquisa:
- Piloto: estudo pequeno, feito para testar se o tratamento parece promissor e orientar pesquisas maiores.
- Randomizado: os participantes são distribuídos entre os grupos por sorteio.
- Controlado: o tratamento é comparado a um grupo que recebe placebo, uma substância sem efeito.
- Paralelo: cada grupo recebe apenas um tipo de tratamento do início ao fim.
- Triplo-cego: nem os pacientes, nem os profissionais que os acompanham, nem os responsáveis pela análise dos dados sabem quem recebeu o tratamento ou o placebo.
Esse tipo de desenho reduz o risco de que expectativas ou vieses influenciem os resultados.
No estudo, participaram 36 adultos submetidos à artroplastia total bilateral de joelho. Eles foram sorteados para três grupos de 12 pessoas: placebo, 400 mg de CBD ou 800 mg de CBD.
Cada participante recebeu quatro doses no período perioperatório, isto é, antes e depois da cirurgia. Todos também receberam anestesia padronizada e os analgésicos convencionais.
Os pesquisadores avaliaram o consumo de opioides nas primeiras 72 horas após a cirurgia, os níveis de dor e a necessidade de medicação de resgate. Também mediram a interleucina-6, um marcador de inflamação, a tolerabilidade do tratamento e os efeitos sobre o sono e o humor.
Resultados: a dose menor teve o melhor efeito
Para comparar o consumo de analgésicos entre os grupos, os pesquisadores usaram uma medida chamada miligramas equivalentes de morfina (MME).
Ela converte diferentes opioides, como tramadol, oxicodona e morfina, em uma unidade comum. Assim, é possível somar e comparar tudo o que cada pessoa recebeu.
1.Dose de 400 mg
Nas primeiras 72 horas após a cirurgia, período em que a dor costuma ser mais intensa, esse grupo consumiu em média 144 MME, contra 209 MME no grupo placebo. Isso representa uma redução de cerca de 31% no uso de opioides.
Os participantes também relataram menos dor e precisaram de menos medicação de resgate, que é a dose extra de analgésico oferecida quando a dor escapa ao controle do tratamento de rotina.
Um detalhe merece atenção: esse grupo usou mais anti-inflamatórios não esteroides, como ibuprofeno e cetorolaco, do que o grupo placebo. Por isso, parte da redução nos opioides pode ter sido compensada por outros analgésicos, ponto que estudos maiores precisarão esclarecer.
2.Dose de 800 mg
A dose mais alta não repetiu o benefício. O grupo consumiu cerca de 203 MME, praticamente o mesmo que o placebo, e ainda teve mais efeitos adversos, como tontura e fadiga, que duraram até uma semana.
O estudo não explica por que o dobro da dose funcionou pior. Mas o resultado mostra que, com o CBD, o efeito não aumenta simplesmente com a quantidade, e encontrar a dose certa é parte essencial do tratamento.
3.Outros efeitos observados
Quem recebeu CBD disse ter dormido melhor em alguns aspectos, mas as medições objetivas, feitas com instrumentos e não pela percepção de cada pessoa, não confirmaram esse benefício. Ou seja, a sensação de melhora pode não corresponder a uma mudança real no sono.
Os resultados também surpreenderam em relação à ansiedade e à inflamação. A expectativa era de que o CBD reduzisse as duas, mas aconteceu o contrário: quem recebeu CBD apresentou escores mais altos de ansiedade e depressão, sobretudo na dose de 800 mg, e níveis mais elevados de interleucina-6.
Limitações e próximos passos
Com apenas 12 participantes por grupo, os resultados são preliminares e não permitem recomendar o uso rotineiro de CBD após cirurgias ortopédicas. Em estudos tão pequenos, uma diferença entre grupos pode surgir ou desaparecer por acaso.
Esse, porém, é justamente o papel de um estudo piloto: abrir caminho. Pesquisas maiores poderão confirmar a redução no consumo de opioides e esclarecer os efeitos sobre ansiedade e inflamação. Uma delas já está em andamento na Universidade de Michigan, também avaliando o Epidiolex® em pacientes submetidos a prótese de joelho.
Conclusão
Em um cenário em que o uso prolongado de opioides é uma preocupação crescente, qualquer estratégia capaz de reduzir a quantidade necessária desses medicamentos merece atenção. Este estudo sugere que o CBD pode ser uma delas, mas a resposta definitiva depende de pesquisas maiores que já estão a caminho.

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Click Cannabis:Dúvidas frequentes
O uso de canabidiol no pós-operatório já está liberado no Brasil?
Sim, desde que haja prescrição médica e o produto seja regularizado pela Anvisa. Para dor pós-operatória, porém, o uso ainda é considerado experimental, e cabe ao médico avaliar se é indicado em cada caso.
Devo avisar o anestesista que uso CBD?
Sim. As diretrizes de anestesia recomendam perguntar sobre o uso de canabinoides antes de toda cirurgia. Com essa informação, a equipe consegue planejar a anestesia com mais segurança.
Preciso parar o CBD antes da cirurgia?
Depende do motivo do uso. Em geral, recomenda-se suspender produtos de cannabis alguns dias antes, mas quem usa CBD para epilepsia não deve interromper de forma repentina. O médico define o melhor caminho.
O CBD interage com outros medicamentos?
Pode interagir, porque é metabolizado no fígado pelas mesmas enzimas de vários remédios. Informar à equipe tudo o que você usa permite ajustar as doses com tranquilidade.
O CBD é seguro para o fígado?
Com acompanhamento médico, o uso é considerado seguro. Como o CBD pode alterar enzimas do fígado, sobretudo em doses altas, exames periódicos ajudam a monitorar.
O CBD substitui os opioides?
Não, mas pode ajudar a reduzir a quantidade necessária. Em um estudo piloto, a dose de 400 mg, somada aos analgésicos convencionais, diminuiu em cerca de 31% o consumo de opioides.
O CBD pode ajudar na recuperação de outras cirurgias além do joelho?
É possível, mas ainda não há comprovação. O estudo avaliou apenas a artroplastia de joelho, e os pesquisadores defendem novos ensaios para confirmar se o benefício se repete em outros procedimentos.
Referências
SIDERIS, A. et al. Effects of cannabidiol (CBD) oral solution in patients undergoing bilateral total knee arthroplasty: a randomized, controlled, parallel, triple blind, pilot study. The Journal of Pain, v. 51, 106477, fev. 2027.



