CBD e Reprodução Assistida: o que a ciência indica hoje
O canabidiol (CBD) pode afetar a fertilização in vitro (FIV)? Evidências ainda são limitadas e exigem cautela.

- O uso de CBD durante a FIV ainda não possui evidências clínicas robustas de segurança e exige cautela
- Estudos sugerem que canabinoides — especialmente o THC — podem interferir na qualidade dos gametas, no equilíbrio hormonal e na implantação embrionária
- A recomendação mais adotada é a suspensão do uso antes e durante o tratamento de reprodução assistida
- A decisão deve ser individualizada e acompanhada por um especialista em reprodução humana
O uso de canabidiol (CBD) durante tratamentos de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV), tem despertado interesse crescente, especialmente entre pacientes que buscam controlar ansiedade e estresse ao longo do processo.
Apesar disso, o posicionamento predominante na literatura científica e entre especialistas é de cautela, com recomendação de evitar o uso durante a fase reprodutiva. O principal motivo está na interação do CBD com o sistema endocanabinoide, que exerce papel relevante na regulação hormonal, na ovulação, na espermatogênese e na implantação embrionária.
Impacto do CBD na fertilidade feminina
Para entender como o CBD pode afetar a fertilidade, é importante observar seu possível impacto sobre processos como a ovulação, a qualidade dos óvulos e a preparação do útero. Mulheres que utilizam CBD para equilíbrio hormonal devem estar atentas a esses aspectos no contexto reprodutivo.
1. Interferência no ciclo ovulatório
O sistema endocanabinoide participa da regulação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, responsável pelo controle da ovulação. Estudos sugerem que a exposição a canabinoides — especialmente o THC — pode interferir nesse equilíbrio, levando a:
- alterações na liberação do GnRH
- desregulação do hormônio luteinizante (LH), essencial para a ovulação
- possíveis atrasos no desenvolvimento folicular ou ciclos anovulatórios
2. Qualidade dos óvulos (oócitos)
Receptores canabinoides (CB1 e CB2) estão presentes nos folículos ovarianos, indicando participação do sistema endocanabinoide na maturação dos oócitos. Estudos experimentais sugerem que a exposição a canabinoides pode:
- estar associada a alterações na maturação dos óvulos
- possivelmente influenciar a qualidade embrionária
- sugerir impacto potencial na taxa de embriões viáveis
Há indícios de menor taxa de embriões euploides em contextos de exposição a canabinoides, embora esses achados ainda não estejam confirmados por estudos clínicos robustos em humanos.
3. Receptividade endometrial e implantação
O útero apresenta atividade relevante do sistema endocanabinoide, especialmente na regulação da implantação embrionária. Para que a nidação ocorra de forma adequada, os níveis de anandamida precisam estar em equilíbrio preciso.
A exposição a canabinoides pode, teoricamente:
- alterar a chamada "janela de implantação"
- influenciar a receptividade endometrial
- interferir na fixação do embrião
4. Regulação hormonal e resposta ao estresse
O CBD pode modular hormônios como o cortisol, o que pode ser benéfico em contextos de estresse. No cenário reprodutivo, porém, essa modulação pode também influenciar o equilíbrio hormonal necessário à ovulação e à resposta aos protocolos de estimulação ovariana.
5. Risco relacionado à presença de THC
Mesmo formulações rotuladas como "full spectrum" podem conter traços de THC. Diferentemente do CBD isolado, o THC possui efeitos mais bem documentados sobre a função reprodutiva, estando associado a alterações hormonais, possível supressão da função ovariana e potenciais impactos nos desfechos gestacionais.
| Impacto na fertilidade feminina | Mecanismo | Possível impacto na FIV |
|---|---|---|
| Ciclo ovulatório alterado | Desregulação do eixo hipotálamo-hipófise | Imprevisibilidade do ciclo |
| Qualidade dos oócitos | Receptores CB1/CB2 nos folículos | Estudos experimentais sugerem possível redução da viabilidade embrionária |
| Implantação potencialmente afetada | Alteração nos níveis de anandamida | Possível interferência na nidação (mecanismo teórico) |
| Desequilíbrio hormonal | Modulação de cortisol e LH | Resposta possivelmente alterada à estimulação ovariana |
| Contaminação por THC | Produtos full spectrum | Efeitos mais bem documentados sobre função ovariana e hormonal |
Ciclo ovulatório alterado
Qualidade dos oócitos
Implantação potencialmente afetada
Desequilíbrio hormonal
Contaminação por THC
Impacto do CBD na fertilidade masculina
A influência do canabidiol (CBD) na saúde masculina e na fertilidade está relacionada à sua interação com o sistema endocanabinoide, presente nos testículos e nos próprios espermatozoides, com papel na regulação da função reprodutiva.
1. Qualidade do sêmen
Estudos sugerem que a exposição a canabinoides — especialmente o THC — pode estar associada a:
- possível redução da contagem de espermatozoides
- alterações na motilidade (capacidade de locomoção)
- mudanças na morfologia espermática
2. Integridade genética dos espermatozoides
Há evidências, principalmente em estudos experimentais, de que a exposição a canabinoides pode estar associada ao aumento da fragmentação do DNA espermático, o que pode impactar:
- a taxa de fertilização
- a viabilidade embrionária
- o risco de falhas na implantação
Entretanto, esses achados ainda não estão plenamente confirmados em estudos clínicos robustos em humanos.
3. Impacto hormonal e função testicular
O CBD pode influenciar o eixo hormonal responsável pela produção de testosterona. Estudos sugerem possível associação com:
- variações nos níveis hormonais
- impacto na libido e na função sexual
- alterações na função testicular (principalmente em modelos experimentais)
4. Função espermática e reação acrossômica
Há indícios de que canabinoides podem interferir na reação acrossômica — processo essencial para a penetração do espermatozoide no óvulo —, podendo:
- reduzir a eficiência da fertilização
- comprometer a capacidade de penetração espermática
Quando interromper o uso de CBD antes da reprodução assistida?
Tanto os óvulos quanto os espermatozoides passam por ciclos de maturação que se estendem por semanas ou meses:
- a espermatogênese leva, em média, de 70 a 90 dias
- o desenvolvimento folicular ocorre de forma progressiva ao longo dos ciclos menstruais
Por esse motivo, muitos especialistas recomendam a interrupção do uso de canabinoides — especialmente aqueles que contêm THC — com antecedência mínima de alguns meses antes do início do tratamento, como forma de reduzir possíveis interferências na qualidade dos gametas.
Essa recomendação baseia-se principalmente na fisiologia reprodutiva e no princípio da precaução, diante da ausência de evidências clínicas robustas de segurança.
Possíveis repercussões clínicas
Embora ainda não haja confirmação definitiva em humanos, alguns mecanismos biológicos sugerem que a exposição a canabinoides pode estar associada a:
- falha de implantação: o embrião apresenta boa qualidade, mas pode não se fixar adequadamente no endométrio
- gravidez bioquímica: há início de implantação, com teste positivo inicial, mas a gestação não evolui
- alterações no transporte embrionário (hipótese experimental): o sistema endocanabinoide participa da regulação do transporte nas trompas, podendo influenciar a localização adequada da implantação
CBD para ansiedade durante a FIV: o que considerar
O canabidiol (CBD) apresenta efeitos ansiolíticos associados, entre outros mecanismos, à modulação de receptores como o 5-HT1A, o que pode contribuir para a redução da ansiedade e do estresse.
No contexto da fertilização in vitro (FIV), no entanto, seu uso deve ser analisado com cautela. Embora o CBD possa oferecer benefícios no controle emocional, ainda não há dados clínicos robustos que confirmem sua segurança durante o período reprodutivo, especialmente em fases sensíveis como a estimulação ovariana e a implantação embrionária.
Além disso, a possível interação do CBD com o sistema endocanabinoide — que participa da regulação hormonal e da receptividade endometrial — levanta questionamentos sobre seu uso nesse cenário. Por esse motivo, muitas clínicas de reprodução assistida recomendam evitar o uso de canabinoides durante o tratamento.
Alternativas para controle do estresse
Diante dessas incertezas, abordagens não farmacológicas são frequentemente priorizadas:
- Acompanhamento psicológico (TCC): amplamente utilizado no suporte a pacientes em reprodução assistida, auxiliando no manejo da ansiedade e das expectativas ao longo do tratamento
- Meditação e mindfulness: associados à redução do estresse e à regulação do cortisol de forma fisiológica
- Técnicas de relaxamento: como respiração guiada e relaxamento progressivo, que favorecem o equilíbrio do sistema nervoso
- Acupuntura: utilizada como abordagem complementar em clínicas de fertilidade, podendo contribuir para a redução do estresse, embora os resultados ainda sejam heterogêneos
Tipo de produto importa? CBD isolado vs espectro completo
Nem todos os produtos de CBD possuem a mesma composição, e essa diferença pode influenciar o impacto potencial na reprodução. Formulações distintas variam quanto à presença de outros canabinoides — especialmente o THC — e ao grau de padronização, fatores que devem ser considerados ao avaliar riscos no contexto da fertilização in vitro.
| Tipo de produto | Composição | Possível impacto na reprodução |
|---|---|---|
| CBD isolado | Apenas canabidiol | Menor risco teórico, mas ainda pode interagir com o sistema endocanabinoide |
| Broad spectrum | Canabinoides sem THC detectável | Possível risco intermediário, dependendo da composição e padronização do produto |
| Full spectrum | Canabinoides + traços de THC | Maior preocupação potencial, pois o THC possui efeitos mais bem documentados sobre a fertilidade |
CBD isolado
Broad spectrum
Full spectrum
Mesmo sem THC, o CBD isolado pode interferir no sistema endocanabinoide. A falta de padronização em alguns produtos aumenta o risco de contaminação e concentração diferente da rotulada. Entender o efeito entourage é importante para avaliar o impacto de cada formulação.
Como a prática clínica tem abordado o uso de CBD na FIV
Com base nas evidências disponíveis até o momento, muitos especialistas em reprodução assistida adotam uma abordagem de cautela em relação ao uso de CBD durante tratamentos como a fertilização in vitro.
De forma geral, na prática clínica observa-se que:
- há tendência de suspensão do uso de canabinoides alguns meses antes do início do tratamento, considerando o ciclo de maturação dos óvulos e dos espermatozoides
- o uso costuma ser evitado durante as etapas da FIV, especialmente nas fases de estimulação ovariana e implantação embrionária
- essa precaução é frequentemente aplicada tanto para mulheres quanto para homens
Essa abordagem não decorre apenas de riscos comprovados em humanos, mas também da ausência de evidências robustas de segurança a longo prazo nesse contexto.
Por isso, decisões relacionadas ao uso de CBD tendem a ser avaliadas de forma individualizada, levando em conta o histórico clínico e os objetivos do tratamento, com acompanhamento de profissional especializado.
Risco da automedicação durante o tratamento
Muitos pacientes enxergam o canabidiol (CBD) como um produto "natural" e, por isso, tendem a presumir que seu uso é sempre seguro. No contexto da reprodução assistida, porém, essa percepção exige cautela.
Tratamentos como a fertilização in vitro envolvem controle rigoroso de variáveis hormonais e biológicas. Nesse cenário, substâncias que interagem com sistemas regulatórios do organismo podem, em tese, influenciar o equilíbrio necessário para o sucesso do procedimento.
O CBD atua no sistema endocanabinoide, presente em tecidos reprodutivos como útero e ovários, e envolvido em processos relevantes, incluindo comunicação celular e preparação do endométrio para a implantação embrionária.
Por esse motivo, o uso sem acompanhamento profissional — mesmo de substâncias consideradas seguras em outros contextos — pode não ser o mais adequado durante o tratamento.
Nesse cenário, é comum que qualquer uso de CBD seja avaliado de forma individualizada, com orientação de um profissional de saúde, de modo a alinhar a conduta aos objetivos e às particularidades do tratamento.
Limitações dos estudos sobre CBD e reprodução assistida
Apesar do crescimento no número de estudos sobre o uso do canabidiol (CBD), ainda existem lacunas importantes quanto aos seus efeitos na reprodução humana, especialmente em contextos como a fertilização in vitro (FIV).
Grande parte das evidências disponíveis:
- deriva de estudos em modelos animais ou experimentos in vitro
- utiliza doses e condições que nem sempre refletem a prática clínica
- ainda carece de dados robustos sobre efeitos a longo prazo em humanos
Além disso, muitos dos achados são baseados em mecanismos biológicos plausíveis, especialmente relacionados à atuação do CBD no sistema endocanabinoide — que desempenha papel na regulação hormonal, na ovulação e na implantação embrionária —, mas que ainda não foram plenamente confirmados em estudos clínicos de grande escala.
Isso significa que os possíveis riscos associados ao uso de canabinoides nesse contexto ainda não estão totalmente definidos, mas também não podem ser descartados.
Diante desse cenário, na prática clínica, é comum que a abordagem siga o princípio da precaução, especialmente em tratamentos como a reprodução assistida e a fertilização in vitro, nos quais múltiplos fatores precisam ser cuidadosamente controlados.
Em termos práticos, como o objetivo é maximizar as chances de sucesso do tratamento e reduzir variáveis potencialmente interferentes, muitos especialistas optam por evitar o uso de CBD durante esse período, mesmo na ausência de evidência clínica definitiva.
Referências
- DUVAL, C. et al. O consumo de cannabis afeta a fertilidade feminina. Nature Communications, v. 16, art. 8185, 2025. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-025-63011-2.
- GOVAHI, A. et al. O canabidiol prejudica a qualidade e a função dos espermatozoides em camundongos adultos. Middle East Fertility Society Journal, v. 29, art. 26, 2024. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s43043-024-00184-8.

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O CBD pode atrapalhar a Fertilização in Vitro (FIV)?
Ainda não há evidências clínicas conclusivas em humanos, mas estudos sugerem que canabinoides — especialmente o THC — podem interferir em processos como ovulação, qualidade dos gametas e implantação embrionária.
É seguro usar CBD durante a FIV?
Até o momento, não existem dados robustos que comprovem a segurança do uso de CBD durante a fertilização in vitro. Por isso, na prática clínica, o uso costuma ser avaliado com cautela.
O CBD pode afetar a qualidade dos óvulos?
Estudos experimentais sugerem que canabinoides podem interferir na maturação dos óvulos e possivelmente influenciar a qualidade embrionária, embora esses efeitos ainda não estejam confirmados em humanos.
O CBD interfere na qualidade do sêmen?
Há indícios, principalmente em estudos experimentais, de que canabinoides podem impactar a contagem, motilidade e integridade genética dos espermatozoides.
O CBD pode dificultar a implantação do embrião?
O sistema endocanabinoide participa da receptividade endometrial. Assim, há hipóteses de que canabinoides possam interferir nesse processo, embora ainda sem confirmação clínica definitiva.
Quanto tempo antes da FIV devo parar de usar CBD?
Na prática, muitos especialistas consideram um intervalo de alguns meses antes do tratamento, com base no tempo de maturação dos óvulos e espermatozoides.
O CBD pode ajudar na ansiedade durante a FIV?
O CBD apresenta efeito ansiolítico em outros contextos, mas seu uso durante a FIV é controverso. Estratégias como acompanhamento psicológico e técnicas de relaxamento são frequentemente priorizadas.
Produtos de CBD sem THC também oferecem risco?
Mesmo sem THC, o CBD pode interagir com o sistema endocanabinoide. Além disso, a falta de padronização de alguns produtos pode levar à presença não declarada de THC.
Posso usar CBD se meu médico autorizar?
O uso tende a ser avaliado de forma individualizada, considerando riscos, benefícios e o contexto clínico de cada paciente.
O CBD pode causar infertilidade permanente?
Não há evidências de infertilidade permanente em humanos. No entanto, alguns estudos sugerem possíveis efeitos temporários na função reprodutiva.




