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Como a via de administração afeta os efeitos da Cannabis Medicinal

7 min de leitura

Neste artigo, você vai entender como as principais vias de administração da Cannabis medicinal modificam o percurso dos canabinoides pelo organismo, como isso pode influenciar o início e a duração dos efeitos e por que a formulação do produto também interfere na absorção.

Formas de administração da cannabis medicinal.
  • A via de administração modifica o percurso dos canabinoides e pode influenciar o início e a duração dos efeitos.
  • Produtos orais, sublinguais, tópicos e transdérmicos apresentam formas diferentes de absorção.
  • A formulação e a alimentação também podem interferir na quantidade de canabinoides absorvida.
  • Início do efeito, pico de concentração, duração e meia-vida representam aspectos diferentes.

Óleos, cápsulas, pomadas e adesivos não se diferenciam apenas pela forma de usar. Cada apresentação determina como os canabinoides entram no organismo, onde atuam e quanto tempo levam para produzir efeitos. Por isso, a concentração de CBD ou THC indicada no rótulo não é suficiente para prever a resposta ao produto: também é preciso considerar a via de administração e a formulação.

Como o organismo absorve e processa o CBD e o THC.

Para produzir seus efeitos, uma substância precisa chegar aos locais do organismo onde atua. O caminho percorrido varia conforme a via de administração e a formulação do produto. Engolir uma cápsula, aplicar um produto sob a língua ou usar uma pomada na pele, por exemplo, envolve diferentes barreiras até que os compostos sejam absorvidos.

A farmacocinética estuda esse percurso e abrange quatro processos, conhecidos pela sigla ADME:

  • Absorção: entrada da substância na circulação sanguínea.
  • Distribuição: transporte da substância pelo sangue até os diferentes tecidos.
  • Metabolismo: transformação da substância pelo organismo, principalmente no fígado.
  • Excreção: eliminação da substância e dos compostos formados durante o metabolismo.

O CBD, ou canabidiol, e o THC, ou tetrahidrocanabinol, passam por todas essas etapas, mas podem ser absorvidos, distribuídos, metabolizados e eliminados de maneiras diferentes.

Outro conceito importante é a biodisponibilidade, que indica a proporção da quantidade administrada que efetivamente chega à circulação sanguínea. Esse dado ajuda a compreender as diferenças entre vias de uso e formulações, mas não determina, isoladamente, o resultado do tratamento. Uma concentração maior no sangue não significa necessariamente maior alívio dos sintomas.

Para entender o que acontece após a absorção, leia também o artigo sobre como o corpo absorve, distribui e elimina THC e CBD

Via oral: como os canabinoides são absorvidos após a ingestão?

Na via oral, o produto é engolido e passa pelo sistema digestivo. Depois de serem liberados da formulação, os canabinoides são absorvidos no intestino e seguem para o fígado antes de alcançar a circulação geral.

Durante esse percurso, parte dessas substâncias é transformada pelo organismo. Esse processo, conhecido como metabolismo de primeira passagem, faz com que apenas uma parcela da quantidade ingerida chegue à corrente sanguínea. No caso do THC, ele também forma o 11-OH-THC, um composto ativo que ajuda a explicar por que os efeitos por via oral podem ser mais intensos e prolongados.

Por causa desse caminho mais longo, os efeitos tendem a começar mais devagar e a durar mais tempo do que em outras vias. A absorção também pode variar conforme a composição do produto e a alimentação, especialmente o teor de gordura da refeição.

Como os canabinoides são absorvidos pela via sublingual?

Na via sublingual, o produto é mantido sob a língua para aumentar o contato com a mucosa da região. Parte dos canabinoides pode atravessar essa mucosa e alcançar a circulação sanguínea sem passar inicialmente pelo trato gastrointestinal. Por isso, os efeitos podem começar mais rapidamente do que quando o produto é apenas engolido.

Entretanto, nem todo o conteúdo aplicado é absorvido pela mucosa. A parcela engolida segue o mesmo percurso da via oral e passa pelo metabolismo de primeira passagem no fígado.

A formulação também influencia esse processo. O fato de um produto ser apresentado em óleo não significa, por si só, que ele tenha sido desenvolvido para uso sublingual. Portanto, a troca de cápsulas por óleo sublingual — ou o contrário — deve ser realizada somente com a orientação do médico prescritor.

Para conhecer as diferenças práticas entre essas apresentações, leia também: CBD sublingual ou cápsulas: qual a melhor forma de uso?

Via tópica e transdérmica: qual é a diferença?

Pomadas, cremes, géis e adesivos podem apresentar comportamentos diferentes no organismo. Isso depende da formulação e da capacidade de seus componentes atravessarem a barreira cutânea, não apenas da presença de CBD no rótulo.

  • Uso tópico: busca produzir efeitos principalmente na região em que o produto é aplicado.
  • Uso transdérmico: emprega uma formulação desenvolvida para transportar os canabinoides através da pele até a circulação sanguínea.

Portanto, uma pomada comum com CBD não deve ser considerada equivalente a um produto transdérmico.

Por que a formulação influencia a absorção dos canabinoides?

O princípio ativo é apenas um dos componentes do produto. Os excipientes — como óleos, emulsificantes e outros ingredientes — ajudam a dissolver, conservar e manter os canabinoides estáveis. Eles também influenciam a maneira e a velocidade com que essas substâncias são liberadas e ficam disponíveis para absorção.

Como o CBD e o THC têm baixa solubilidade em água, o veículo utilizado pode facilitar sua dispersão e seu contato com a mucosa intestinal ou sublingual. A composição, a consistência e a forma de apresentação do produto também interferem nesse processo.

Por isso, dois produtos com concentrações semelhantes de CBD e THC podem ser absorvidos de maneiras distintas. A quantidade indicada no rótulo, isoladamente, não permite prever como cada formulação se comportará no organismo.

O que muda na prática quando a forma de administração é diferente?

A forma de administração influencia a maneira como o paciente percebe os efeitos da cannabis medicinal durante o tratamento. Embora os produtos possam conter os mesmos canabinoides, a experiência de uso pode variar conforme a estratégia escolhida pelo profissional de saúde.

Na prática, a forma de administração pode influenciar:

  • Rapidez para o início dos efeitos: algumas estratégias produzem efeitos mais rapidamente, enquanto outras apresentam início mais gradual.
  • Duração dos efeitos: o tempo durante o qual os efeitos permanecem pode variar conforme a forma de utilização.
  • Facilidade para ajustar a dose: determinadas formas permitem ajustes graduais ao longo do tratamento, favorecendo a individualização da terapia.
  • Previsibilidade da resposta: algumas estratégias proporcionam respostas mais consistentes entre as administrações.
  • Praticidade na rotina: fatores como frequência de uso, facilidade de aplicação e conveniência também podem influenciar a adesão ao tratamento.

Essas diferenças não significam que uma forma de administração seja melhor do que outra. A escolha depende das necessidades de cada paciente e dos objetivos definidos para o tratamento.

Início, pico e duração do efeito: qual é a diferença?

Esses termos representam etapas diferentes da ação dos canabinoides no organismo:

  • Início do efeito: momento em que uma resposta começa a ser percebida ou identificada.
  • Pico de concentração: momento em que o canabinoide alcança sua maior concentração no sangue.
  • Duração do efeito: período durante o qual a resposta produzida permanece perceptível.

A meia-vida é o tempo necessário para que a concentração da substância no organismo seja reduzida pela metade. Essa medida ajuda a compreender sua permanência no corpo, mas não indica, necessariamente, por quanto tempo o benefício clínico será percebido. No caso do CBD oral, o tempo para atingir o pico e a meia-vida são parâmetros distintos e podem variar conforme a formulação e as condições de uso.

Por isso, não existe um tempo único de início, pico ou duração aplicável a todos os produtos. Essas estimativas dependem do canabinoide, da formulação, da via de administração, da quantidade utilizada, das características individuais e do efeito avaliado.

Conclusão

Compreender as particularidades de cada produto contribui para um tratamento mais previsível e adequado às necessidades de cada pessoa. Por isso, qualquer mudança na forma de uso deve ser realizada com orientação do profissional responsável.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

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Dúvidas frequentes

A via sublingual é mais eficiente do que a via oral?

Não necessariamente. A via sublingual pode proporcionar início mais rápido dos efeitos, enquanto a via oral tende a apresentar absorção mais lenta e efeitos mais prolongados. A escolha depende dos objetivos do tratamento, da formulação utilizada e da resposta individual.

A mesma quantidade de CBD pode produzir efeitos diferentes conforme a via de administração?

Sim. Cada via determina um percurso diferente pelo organismo e pode alterar a quantidade absorvida, o início e a duração dos efeitos. Por isso, produtos com a mesma quantidade de CBD não são necessariamente equivalentes quando administrados de formas diferentes.

Posso trocar a via de administração da cannabis medicinal durante o tratamento?

A troca pode modificar a absorção dos canabinoides e a resposta ao tratamento. Portanto, a substituição entre óleos, cápsulas, produtos tópicos ou adesivos transdérmicos deve ser feita com orientação do profissional responsável.

A alimentação interfere na absorção do CBD por via oral?

Sim. A presença de alimentos, especialmente refeições com maior teor de gordura, pode aumentar a quantidade de CBD absorvida pelo organismo. Manter condições semelhantes em cada administração ajuda a reduzir variações na resposta ao tratamento.

Qual é a diferença entre produtos tópicos e transdérmicos de cannabis?

Os produtos tópicos são formulados para atuar principalmente no local da aplicação. Já os transdérmicos são desenvolvidos para atravessar as camadas da pele e liberar os canabinoides na circulação sanguínea, produzindo efeitos sistêmicos.

A via de administração altera a duração dos efeitos dos canabinoides?

Sim. A velocidade e o percurso da absorção variam conforme a via utilizada, podendo modificar o tempo necessário para o início dos efeitos e o período durante o qual eles permanecem. A duração também depende da formulação, da quantidade administrada e das características individuais.

A via de administração influencia a biodisponibilidade dos canabinoides?

Sim. A via interfere na quantidade de CBD ou THC que alcança a circulação sanguínea. Entretanto, maior biodisponibilidade não significa necessariamente maior benefício terapêutico, pois a resposta também depende da formulação, da quantidade utilizada e das características de cada paciente.

Para saber mais, leia: Cannabis medicinal: biodisponibilidade e eficácia terapêutica.

Referências

  1. DailyMed. MARINOL (dronabinol): informações de prescrição, seções 12.2 e 12.3.
  2. Vandrey et al. Pharmacokinetic Profile of Oral Cannabis in Humans: Blood and Oral Fluid Disposition and Relation to Pharmacodynamic Outcomes. 2017.
  3. Taylor et al. A Phase I, Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Single Ascending Dose, Multiple Dose, and Food Effect Trial of the Safety, Tolerability and Pharmacokinetics of Highly Purified Cannabidiol in Healthy Subjects. 2018.
  4. Health Canada. Information for Health Care Professionals: Cannabis and the cannabinoids. Seções 2.2 e 2.3. 2018.

Contribuidores:

Andrea Vieira

Andrea Vieira

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