Neste artigo, você vai entender como as principais vias de administração da Cannabis medicinal modificam o percurso dos canabinoides pelo organismo, como isso pode influenciar o início e a duração dos efeitos e por que a formulação do produto também interfere na absorção.

- A via de administração modifica o percurso dos canabinoides e pode influenciar o início e a duração dos efeitos.
- Produtos orais, sublinguais, tópicos e transdérmicos apresentam formas diferentes de absorção.
- A formulação e a alimentação também podem interferir na quantidade de canabinoides absorvida.
- Início do efeito, pico de concentração, duração e meia-vida representam aspectos diferentes.
Óleos, cápsulas, pomadas e adesivos não se diferenciam apenas pela forma de usar. Cada apresentação determina como os canabinoides entram no organismo, onde atuam e quanto tempo levam para produzir efeitos. Por isso, a concentração de CBD ou THC indicada no rótulo não é suficiente para prever a resposta ao produto: também é preciso considerar a via de administração e a formulação.
Como o organismo absorve e processa o CBD e o THC.
Para produzir seus efeitos, uma substância precisa chegar aos locais do organismo onde atua. O caminho percorrido varia conforme a via de administração e a formulação do produto. Engolir uma cápsula, aplicar um produto sob a língua ou usar uma pomada na pele, por exemplo, envolve diferentes barreiras até que os compostos sejam absorvidos.
A farmacocinética estuda esse percurso e abrange quatro processos, conhecidos pela sigla ADME:
- Absorção: entrada da substância na circulação sanguínea.
- Distribuição: transporte da substância pelo sangue até os diferentes tecidos.
- Metabolismo: transformação da substância pelo organismo, principalmente no fígado.
- Excreção: eliminação da substância e dos compostos formados durante o metabolismo.
O CBD, ou canabidiol, e o THC, ou tetrahidrocanabinol, passam por todas essas etapas, mas podem ser absorvidos, distribuídos, metabolizados e eliminados de maneiras diferentes.
Outro conceito importante é a biodisponibilidade, que indica a proporção da quantidade administrada que efetivamente chega à circulação sanguínea. Esse dado ajuda a compreender as diferenças entre vias de uso e formulações, mas não determina, isoladamente, o resultado do tratamento. Uma concentração maior no sangue não significa necessariamente maior alívio dos sintomas.
Para entender o que acontece após a absorção, leia também o artigo sobre como o corpo absorve, distribui e elimina THC e CBD
Via oral: como os canabinoides são absorvidos após a ingestão?
Na via oral, o produto é engolido e passa pelo sistema digestivo. Depois de serem liberados da formulação, os canabinoides são absorvidos no intestino e seguem para o fígado antes de alcançar a circulação geral.
Durante esse percurso, parte dessas substâncias é transformada pelo organismo. Esse processo, conhecido como metabolismo de primeira passagem, faz com que apenas uma parcela da quantidade ingerida chegue à corrente sanguínea. No caso do THC, ele também forma o 11-OH-THC, um composto ativo que ajuda a explicar por que os efeitos por via oral podem ser mais intensos e prolongados.
Por causa desse caminho mais longo, os efeitos tendem a começar mais devagar e a durar mais tempo do que em outras vias. A absorção também pode variar conforme a composição do produto e a alimentação, especialmente o teor de gordura da refeição.
Como os canabinoides são absorvidos pela via sublingual?
Na via sublingual, o produto é mantido sob a língua para aumentar o contato com a mucosa da região. Parte dos canabinoides pode atravessar essa mucosa e alcançar a circulação sanguínea sem passar inicialmente pelo trato gastrointestinal. Por isso, os efeitos podem começar mais rapidamente do que quando o produto é apenas engolido.
Entretanto, nem todo o conteúdo aplicado é absorvido pela mucosa. A parcela engolida segue o mesmo percurso da via oral e passa pelo metabolismo de primeira passagem no fígado.
A formulação também influencia esse processo. O fato de um produto ser apresentado em óleo não significa, por si só, que ele tenha sido desenvolvido para uso sublingual. Portanto, a troca de cápsulas por óleo sublingual — ou o contrário — deve ser realizada somente com a orientação do médico prescritor.
Para conhecer as diferenças práticas entre essas apresentações, leia também: CBD sublingual ou cápsulas: qual a melhor forma de uso?
Via tópica e transdérmica: qual é a diferença?
Pomadas, cremes, géis e adesivos podem apresentar comportamentos diferentes no organismo. Isso depende da formulação e da capacidade de seus componentes atravessarem a barreira cutânea, não apenas da presença de CBD no rótulo.
- Uso tópico: busca produzir efeitos principalmente na região em que o produto é aplicado.
- Uso transdérmico: emprega uma formulação desenvolvida para transportar os canabinoides através da pele até a circulação sanguínea.
Portanto, uma pomada comum com CBD não deve ser considerada equivalente a um produto transdérmico.
Por que a formulação influencia a absorção dos canabinoides?
O princípio ativo é apenas um dos componentes do produto. Os excipientes — como óleos, emulsificantes e outros ingredientes — ajudam a dissolver, conservar e manter os canabinoides estáveis. Eles também influenciam a maneira e a velocidade com que essas substâncias são liberadas e ficam disponíveis para absorção.
Como o CBD e o THC têm baixa solubilidade em água, o veículo utilizado pode facilitar sua dispersão e seu contato com a mucosa intestinal ou sublingual. A composição, a consistência e a forma de apresentação do produto também interferem nesse processo.
Por isso, dois produtos com concentrações semelhantes de CBD e THC podem ser absorvidos de maneiras distintas. A quantidade indicada no rótulo, isoladamente, não permite prever como cada formulação se comportará no organismo.
O que muda na prática quando a forma de administração é diferente?
A forma de administração influencia a maneira como o paciente percebe os efeitos da cannabis medicinal durante o tratamento. Embora os produtos possam conter os mesmos canabinoides, a experiência de uso pode variar conforme a estratégia escolhida pelo profissional de saúde.
Na prática, a forma de administração pode influenciar:
- Rapidez para o início dos efeitos: algumas estratégias produzem efeitos mais rapidamente, enquanto outras apresentam início mais gradual.
- Duração dos efeitos: o tempo durante o qual os efeitos permanecem pode variar conforme a forma de utilização.
- Facilidade para ajustar a dose: determinadas formas permitem ajustes graduais ao longo do tratamento, favorecendo a individualização da terapia.
- Previsibilidade da resposta: algumas estratégias proporcionam respostas mais consistentes entre as administrações.
- Praticidade na rotina: fatores como frequência de uso, facilidade de aplicação e conveniência também podem influenciar a adesão ao tratamento.
Essas diferenças não significam que uma forma de administração seja melhor do que outra. A escolha depende das necessidades de cada paciente e dos objetivos definidos para o tratamento.
Início, pico e duração do efeito: qual é a diferença?
Esses termos representam etapas diferentes da ação dos canabinoides no organismo:
- Início do efeito: momento em que uma resposta começa a ser percebida ou identificada.
- Pico de concentração: momento em que o canabinoide alcança sua maior concentração no sangue.
- Duração do efeito: período durante o qual a resposta produzida permanece perceptível.
A meia-vida é o tempo necessário para que a concentração da substância no organismo seja reduzida pela metade. Essa medida ajuda a compreender sua permanência no corpo, mas não indica, necessariamente, por quanto tempo o benefício clínico será percebido. No caso do CBD oral, o tempo para atingir o pico e a meia-vida são parâmetros distintos e podem variar conforme a formulação e as condições de uso.
Por isso, não existe um tempo único de início, pico ou duração aplicável a todos os produtos. Essas estimativas dependem do canabinoide, da formulação, da via de administração, da quantidade utilizada, das características individuais e do efeito avaliado.
Conclusão
Compreender as particularidades de cada produto contribui para um tratamento mais previsível e adequado às necessidades de cada pessoa. Por isso, qualquer mudança na forma de uso deve ser realizada com orientação do profissional responsável.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

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A via sublingual é mais eficiente do que a via oral?
Não necessariamente. A via sublingual pode proporcionar início mais rápido dos efeitos, enquanto a via oral tende a apresentar absorção mais lenta e efeitos mais prolongados. A escolha depende dos objetivos do tratamento, da formulação utilizada e da resposta individual.
A mesma quantidade de CBD pode produzir efeitos diferentes conforme a via de administração?
Sim. Cada via determina um percurso diferente pelo organismo e pode alterar a quantidade absorvida, o início e a duração dos efeitos. Por isso, produtos com a mesma quantidade de CBD não são necessariamente equivalentes quando administrados de formas diferentes.
Posso trocar a via de administração da cannabis medicinal durante o tratamento?
A troca pode modificar a absorção dos canabinoides e a resposta ao tratamento. Portanto, a substituição entre óleos, cápsulas, produtos tópicos ou adesivos transdérmicos deve ser feita com orientação do profissional responsável.
A alimentação interfere na absorção do CBD por via oral?
Sim. A presença de alimentos, especialmente refeições com maior teor de gordura, pode aumentar a quantidade de CBD absorvida pelo organismo. Manter condições semelhantes em cada administração ajuda a reduzir variações na resposta ao tratamento.
Qual é a diferença entre produtos tópicos e transdérmicos de cannabis?
Os produtos tópicos são formulados para atuar principalmente no local da aplicação. Já os transdérmicos são desenvolvidos para atravessar as camadas da pele e liberar os canabinoides na circulação sanguínea, produzindo efeitos sistêmicos.
A via de administração altera a duração dos efeitos dos canabinoides?
Sim. A velocidade e o percurso da absorção variam conforme a via utilizada, podendo modificar o tempo necessário para o início dos efeitos e o período durante o qual eles permanecem. A duração também depende da formulação, da quantidade administrada e das características individuais.
A via de administração influencia a biodisponibilidade dos canabinoides?
Sim. A via interfere na quantidade de CBD ou THC que alcança a circulação sanguínea. Entretanto, maior biodisponibilidade não significa necessariamente maior benefício terapêutico, pois a resposta também depende da formulação, da quantidade utilizada e das características de cada paciente.
Para saber mais, leia: Cannabis medicinal: biodisponibilidade e eficácia terapêutica.
Referências
- DailyMed. MARINOL (dronabinol): informações de prescrição, seções 12.2 e 12.3.
- Vandrey et al. Pharmacokinetic Profile of Oral Cannabis in Humans: Blood and Oral Fluid Disposition and Relation to Pharmacodynamic Outcomes. 2017.
- Taylor et al. A Phase I, Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Single Ascending Dose, Multiple Dose, and Food Effect Trial of the Safety, Tolerability and Pharmacokinetics of Highly Purified Cannabidiol in Healthy Subjects. 2018.
- Health Canada. Information for Health Care Professionals: Cannabis and the cannabinoids. Seções 2.2 e 2.3. 2018.




