Canabinoides

Canabinoides por fermentação: entenda a produção sem cultivo de cannabis

6 min de leitura

Os canabinoides produzidos por fermentação são uma das principais inovações da biotecnologia aplicada à cannabis medicinal. Neste artigo, explicamos como esses compostos são produzidos, quais são suas principais vantagens, suas limitações e o papel dessa tecnologia no futuro da produção de canabinoides.

Produção de canabinoides por fermentação de precisão em biorreator
  • Os canabinoides por fermentação são produzidos por microrganismos geneticamente modificados, sem necessidade do cultivo da *Cannabis sativa*.
  • As moléculas obtidas por fermentação são quimicamente idênticas às produzidas naturalmente pela planta.
  • A tecnologia permite produzir canabinoides menos abundantes, como THCV e CBDV, com maior eficiência e elevado grau de pureza.
  • Os canabinoides produzidos por fermentação não são sintéticos. Eles são classificados como biossintéticos e possuem a mesma estrutura química dos canabinoides da *cannabis sativa*.

A cannabis sativa reúne mais de 565 compostos naturais, entre eles os canabinoides CBD e THC. Tradicionalmente, essas moléculas são obtidas por meio do cultivo da planta. Nos últimos anos, porém, uma nova tecnologia tem ganhado destaque: a fermentação de precisão, que permite produzir canabinoides sem a necessidade do cultivo.

Nessa abordagem, microrganismos geneticamente modificados são utilizados para sintetizar canabinoides quimicamente idênticos aos encontrados naturalmente na planta, em um processo semelhante ao empregado na fabricação de insulina e de outros medicamentos biotecnológicos.

Embora também possa ser empregada para produzir CBD e THC, uma das principais aplicações da fermentação de precisão é a obtenção de canabinoides raros, ampliando sua disponibilidade para pesquisas científicas e para o desenvolvimento de medicamentos.

Como funciona a produção de canabinoides por fermentação?

De forma simplificada, a produção ocorre em quatro etapas:

1. Engenharia genética: Os pesquisadores identificam, na cannabis sativa, os genes que codificam as enzimas responsáveis pela biossíntese dos canabinoides. Em seguida, esses genes são inseridos no DNA de um microrganismo, geralmente a levedura Saccharomyces cerevisiae, que passa a produzir essas enzimas.

2. Fermentação em biorreatores: As leveduras modificadas são cultivadas em grandes tanques industriais, chamados biorreatores, onde recebem glicose, água, oxigênio, minerais e outros nutrientes necessários ao crescimento celular. Todo o processo ocorre sob condições rigorosamente controladas de temperatura, pH e oxigenação.

3. Produção dos canabinoides: Durante a fermentação, as leveduras utilizam esses nutrientes para crescer e produzir os canabinoides. As enzimas produzidas a partir dos genes inseridos catalisam as reações da via biossintética dos canabinoides. Inicialmente, ocorre a formação do CBGA, molécula precursora que, por ação de enzimas específicas, é convertida em diferentes canabinoides, como CBDA, THCA e CBCA, que posteriormente podem originar CBD, THC e CBC.

4. Purificação: Ao final da fermentação, o conteúdo do biorreator passa por etapas de separação e purificação para isolar os canabinoides produzidos. O resultado é um ingrediente farmacêutico de elevada pureza, quimicamente idêntico ao encontrado naturalmente na planta e obtido sob rigorosos padrões de controle de qualidade.

Por que a fermentação facilita a produção de canabinoides raros?

Os canabinoides raros estão presentes em concentrações muito baixas na cannabis sativa. Por esse motivo, sua obtenção pelo cultivo tradicional pode exigir grandes quantidades da planta, além de processos complexos de extração e purificação, o que reduz sua disponibilidade e aumenta os custos de produção.

Na fermentação de precisão, esse desafio é minimizado porque os microrganismos podem ser geneticamente programados para produzir diretamente o canabinoide de interesse. Assim, a produção deixa de depender da baixa concentração natural dessas moléculas na planta, tornando mais viável a obtenção de canabinoides raros.

Quais benefícios a fermentação oferece em relação ao cultivo tradicional de canabinoides?

A produção de canabinoides por fermentação oferece diversas vantagens em relação ao cultivo tradicional da cannabis sativa. Entre os principais benefícios estão:

  • Alta padronização: Como o processo ocorre em condições rigorosamente controladas, é possível reduzir a variação entre os lotes. Isso contribui para que os canabinoides apresentem composição e concentração mais consistentes.
  • Elevado grau de pureza: Os canabinoides obtidos por fermentação podem alcançar elevado grau de pureza, característica importante para aplicações farmacêuticas e pesquisas que exigem ingredientes com composição bem definida.
  • Produção independente do cultivo: A fermentação não depende de fatores como clima, solo, sazonalidade ou produtividade agrícola. Isso proporciona maior previsibilidade no fornecimento dos canabinoides e reduz a influência de variações ambientais.
  • Facilidade de expansão da produção: Depois que o processo é estabelecido, a capacidade produtiva pode ser ampliada conforme a demanda, sem a necessidade de expandir áreas de cultivo. Isso favorece a produção em escala industrial e o fornecimento contínuo de ingredientes padronizados.

Os canabinoides produzidos por fermentação são sintéticos?

Não. Os canabinoides produzidos por fermentação são classificados como biossintéticos, pois são obtidos por um processo biotecnológico que reproduz a biossíntese natural da cannabis sativa. Como resultado, possuem estrutura molecular exatamente idêntica à dos canabinoides encontrados na planta e apresentam as mesmas propriedades químicas e biológicas.

Também é importante não confundir os medicamentos canabinoides sintéticos com as substâncias ilícitas comercializadas como "canabinoides sintéticos".

Os medicamentos canabinoides sintéticos, como o dronabinol e a nabilona, são produzidos por síntese química, possuem composição conhecida, dosagem padronizada e são regulamentados por agências sanitárias para uso terapêutico em indicações específicas.

Já os chamados "canabinoides sintéticos" ilícitos são misturas químicas produzidas clandestinamente para imitar os efeitos do THC. Essas substâncias apresentam estruturas químicas diferentes dos fitocanabinoides encontrados na cannabis sativa, não passam por controle de qualidade e estão associadas a maior risco de intoxicações e efeitos adversos graves.

Quais empresas desenvolvem canabinoides por fermentação?

Diversas empresas de biotecnologia investem na fermentação de precisão para produzir canabinoides destinados principalmente à pesquisa, ao desenvolvimento farmacêutico e à fabricação de ingredientes especializados. Entre as principais estão:

  • Hyasynth Bio (Canadá): pioneira na produção de canabinoides por fermentação utilizando leveduras geneticamente modificadas, com foco em CBD e outros canabinoides.
  • Ginkgo Bioworks (Estados Unidos): desenvolve plataformas de biologia sintética e microrganismos geneticamente modificados para a produção de canabinoides em parceria com outras empresas.
  • Demetrix (Estados Unidos): utiliza fermentação de precisão para produzir canabinoides de alta pureza destinados aos setores farmacêutico, cosmético e de bem-estar.

Além dessas empresas, universidades e centros de pesquisa em diferentes países também desenvolvem tecnologias voltadas à produção de canabinoides por fermentação.

Conclusão

A fermentação de precisão representa um importante avanço na produção de canabinoides, especialmente por permitir a obtenção de compostos com elevado grau de pureza, alta padronização e maior disponibilidade de canabinoides raros.

Embora ainda existam desafios relacionados aos custos de produção, à expansão da escala industrial e às exigências regulatórias, essa tecnologia tem potencial para complementar o cultivo tradicional da cannabis sativa.

À medida que a biotecnologia evolui, a tendência é que a fermentação amplie o acesso a ingredientes padronizados e contribua para o desenvolvimento de novos medicamentos e pesquisas científicas.

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Dúvidas frequentes

Quais canabinoides podem ser produzidos por fermentação?

A fermentação de precisão permite produzir diversos canabinoides encontrados naturalmente na cannabis sativa. Entre eles estão CBD, THC, CBG, CBC, CBN, THCV e CBDV, além de outros canabinoides raros, desde que sua via biossintética seja conhecida e possa ser reproduzida por microrganismos geneticamente modificados.

Por que a produção de canabinoides por fermentação é considerada mais sustentável?

A fermentação utiliza biorreatores em vez do cultivo da planta, reduzindo a necessidade de grandes áreas agrícolas e diminuindo a dependência de fatores como clima, solo e sazonalidade. Além disso, pode consumir menos água, ocupar menos espaço físico e demandar menos recursos em comparação com determinados sistemas de cultivo, especialmente os realizados em ambientes totalmente controlados.

A fermentação substitui os extratos de cannabis?

Não necessariamente. A fermentação de precisão representa uma alternativa para produzir canabinoides isolados com alto grau de pureza e qualidade padronizada, sendo especialmente útil para o desenvolvimento de medicamentos e pesquisas. Já os extratos de cannabis sativa continuam tendo um papel importante, pois contêm uma combinação natural de canabinoides, terpenos e outros compostos da planta que podem ser desejáveis em determinadas formulações terapêuticas. Assim, as duas tecnologias tendem a coexistir, atendendo a diferentes necessidades clínicas e industriais.

Já existem medicamentos ou Produtos de Cannabis feitos com canabinoides produzidos por fermentação no Brasil?

Até o momento, os Produtos de Cannabis comercializados no Brasil são obtidos principalmente a partir de extratos da planta ou de canabinoides purificados. Embora empresas de biotecnologia já produzam canabinoides por fermentação em escala industrial, essa tecnologia ainda possui aplicação mais voltada à pesquisa, ao desenvolvimento farmacêutico e à produção de ingredientes farmacêuticos ativos.

Existe risco de consumir organismos geneticamente modificados nos canabinoides produzidos por fermentação?

Não. Durante o processo de fabricação, os microrganismos geneticamente modificados são utilizados apenas para produzir os canabinoides. Ao final da fermentação, o produto passa por etapas de separação e purificação que removem as células e outras impurezas, resultando em um ingrediente farmacêutico de alta pureza. Assim, o canabinoide final não contém os organismos geneticamente modificados utilizados na produção.

É possível reproduzir o efeito comitiva com canabinoides produzidos por fermentação?

A fermentação de precisão normalmente produz canabinoides isolados de alta pureza, como CBD ou THC. No entanto, diferentes canabinoides e terpenos produzidos separadamente podem ser posteriormente combinados em formulações específicas. Essa estratégia permite criar perfis de composição semelhantes aos dos extratos da cannabis sativa. Apesar desse potencial, ainda são necessários mais estudos para confirmar se essas formulações reproduzem o mesmo efeito comitiva observado em produtos full spectrum.

Quais são as vantagens da fermentação para a indústria farmacêutica?

A fermentação permite produzir canabinoides com elevada padronização, pureza e reprodutibilidade entre os lotes, reduzindo a influência de fatores agrícolas como clima, pragas e sazonalidade. Essas características favorecem o desenvolvimento de medicamentos, além de ampliar a disponibilidade de canabinoides menos abundantes e facilitar a produção em escala industrial.

Referências

  1. FAVERO, Gabriel R.; PEREIRA, Guilherme V. M.; CARVALHO, Júlio C.; CARVALHO NETO, Daniel P.; SOCCOL, Carlos R. Converting sugars into cannabinoids: the state-of-the-art of heterologous production in microorganisms. Fermentation, Basel, v. 8, n. 2, art. 84, 2022. DOI: 10.3390/fermentation8020084.

  2. LUO, Xiaozhou et al. Complete biosynthesis of cannabinoids and their unnatural analogues in yeast. Nature, London, v. 567, p. 123-126, 2019. DOI: 10.1038/s41586-019-0978-9.

  3. MANGANYI, M. C.; TCHATCHOUANG, C. D. K. Biotechnological advancements enabling cannabinoid biosynthesis in engineered fungi: a mini review. Frontiers in Fungal Biology, Lausanne, v. 6, 2025.

  4. TAHIR, M. Nazir; RAZ, Farsheed Shahbazi; RONDEAU-GAGNÉ, Simon; TRANT, John F. The biosynthesis of the cannabinoids. Journal of Cannabis Research, London, v. 3, art. 7, 2021. DOI: 10.1186/s42238-021-00062-4.

Contribuidores:

Andrea Vieira

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