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Cannabis Medicinal e Depressão Resistente ao tratamento: Evidências do UK Medical Cannabis Registry

19/02/2026
4 min de leitura

Em 9 de fevereiro de 2026, a European Food Safety Authority (EFSA) publicou atualização relevante sobre o uso do canabidiol (CBD) como “novo alimento” (novel food) na União Europeia. Pela primeira vez, foi definido um nível provisório de ingestão diária segura para adultos, ao mesmo tempo em que a autoridade reconheceu a persistência de lacunas científicas relevantes.

Para o mercado de cannabis — inclusive sob a perspectiva regulatória brasileira — a decisão estabelece parâmetros técnicos que podem influenciar discussões futuras sobre segurança alimentar e suplementos à base de CBD.

Planta de cannabis ao lado de frascos de óleo de CBD, ilustrando a regulamentação do canabidiol como novo alimento na União Europeia.

O que significa “novo alimento” na União Europeia?

Na União Europeia, o termo “Novo Alimento” (Novel Food) designa qualquer alimento ou ingrediente que não era consumido de forma significativa antes de 15 de maio de 1997.

Essa data corresponde à entrada em vigor do Regulamento (CE) nº 258/97, que instituiu um marco jurídico objetivo para diferenciar:

  • alimentos com histórico comprovado de consumo seguro na Europa;
  • ingredientes novos, cujo impacto à saúde ainda não estava suficientemente estudado.

Atualmente, o tema é regulado pelo Regulamento (UE) 2015/2283, que abrange, entre outras, as seguintes categorias:

  • Inovação tecnológica: alimentos obtidos por novos processos ou com estruturas modificadas;
  • Novas fontes: derivados de microrganismos, fungos, algas ou fontes animais não tradicionais;
  • Alimentos tradicionais de países terceiros: produtos consumidos fora da Europa que passam a ser introduzidos no mercado europeu;
  • Substâncias específicas: categoria na qual se enquadra o CBD, exigindo autorização científica prévia para comercialização como alimento.

Qual foi o limite provisório de ingestão definido pela EFSA?

A EFSA estabeleceu um nível provisório de ingestão segura de 0,0275 mg por quilo de peso corporal por dia.

Na prática, um adulto de 70 kg não deveria ultrapassar aproximadamente 2 mg diários de CBD quando utilizado como alimento.

O valor foi fixado com base nas evidências científicas atualmente disponíveis, incorporando margens adicionais de segurança em razão das incertezas identificadas.

O limite se aplica a qualquer produto com CBD?

Não.

O nível provisório é restrito a formulações altamente padronizadas e tecnicamente controladas, especificamente:

  • suplementos alimentares;
  • formulações com pureza mínima de 98% de CBD;
  • produtos sem nanopartículas;
  • processos de fabricação considerados seguros;
  • ausência de evidência de genotoxicidade.

Trata-se, portanto, de parâmetro aplicável a produtos com elevado grau de pureza e controle científico.

Grupos que exigem maior cautela

A EFSA destacou que não foi possível estabelecer segurança para determinados grupos, recomendando cautela em relação a:

  • menores de 25 anos;
  • gestantes;
  • lactantes;
  • pessoas que utilizam medicamentos.

A principal preocupação refere-se ao potencial de interação medicamentosa. O CBD pode interferir em enzimas hepáticas do sistema CYP450, alterando o metabolismo de diversos fármacos e, consequentemente, sua concentração plasmática.

Quais são as condições da EFSA para a revisão dos níveis de CBD

A EFSA seguirá analisando, de forma individualizada, cada pedido de autorização para comercialização de novos alimentos à base de CBD.

O nível provisório de ingestão segura poderá ser revisto à medida que novos dados científicos forem apresentados, especialmente quando:

  • estudos toxicológicos adicionais forem submetidos;
  • pesquisas clínicas adequadas estiverem disponíveis;
  • evidências científicas mais robustas contribuírem para reduzir as incertezas atualmente existentes.

Em outras palavras, o limite fixado não é definitivo: ele poderá ser ajustado conforme a ciência avance e forneça maior segurança quanto aos efeitos do CBD no organismo.

Como a diretriz europeia molda o cenário global.

Embora a decisão tenha sido tomada no âmbito europeu, seus efeitos ultrapassam as fronteiras da União Europeia e influenciam o debate regulatório internacional.

Isso ocorre por três razões principais:

  • A definição de um parâmetro técnico concreto de ingestão alimentar segura;
  • O reforço da distinção entre uso alimentar e uso medicinal do CBD;
  • A exigência de elevado grau de pureza, padronização e comprovação científica rigorosa.

Na prática, a medida sinaliza que o enquadramento do CBD como alimento depende de critérios científicos robustos e não apenas de sua popularização no mercado.

A decisão da EFSA e seus possíveis reflexos no Brasil

Atualmente, a Anvisa não autoriza o uso de CBD como ingrediente alimentar ou suplemento no Brasil. Os produtos à base de cannabis permanecem enquadrados como de uso medicinal, sujeitos a prescrição e controle sanitário específico.

Ainda que não haja reconhecimento do CBD como alimento no ordenamento brasileiro, a consolidação de parâmetros internacionais de segurança pode influenciar o debate técnico nacional à medida que novos dados científicos sejam produzidos e analisados.

Conclusão

A decisão da EFSA representa um marco regulatório relevante ao estabelecer, pela primeira vez, um limite provisório de ingestão alimentar segura para o CBD.

Contudo, o posicionamento permanece cauteloso, condicionado à evolução das evidências científicas. O cenário regulatório, portanto, continua em construção.

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Contribuidores:

Andrea Vieira

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