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Cannabis medicinal é fitoterápico? Entenda as diferenças entre produto de Cannabis e medicamento

5 min de leitura

Neste artigo, você vai entender como a Anvisa classifica os derivados da Cannabis sativa, quais são as categorias regulatórias existentes e as principais diferenças entre Produtos de Cannabis e Medicamentos Fitoterápicos.

Produto de Cannabis e medicamento fitoterápico têm classificações regulatórias diferentes.
  • A Cannabis medicinal não é classificada como medicamento fitoterápico pela Anvisa — ela é regulamentada por uma categoria própria, o Produto de Cannabis.
  • Ter origem vegetal não é suficiente para um produto ser considerado fitoterápico: a legislação exige que o princípio ativo seja o fitocomplexo, vedando substâncias isoladas como o CBD.
  • Produtos de Cannabis podem conter CBD isolado ou extratos como full spectrum e broad spectrum — composições que não são permitidas em medicamentos fitoterápicos.
  • Essa diferença regulatória explica por que a maioria dos óleos de Cannabis vendidos no mercado brasileiro não é registrada como medicamento fitoterápico.

Não. A Cannabis medicinal não é classificada como Medicamento Fitoterápico pela legislação brasileira.

De acordo com a regulamentação da Anvisa , em especial as RDCs nº 1.015/2026 e nº 1.023/2026, os produtos derivados da Cannabis sativa destinados ao uso terapêutico pertencem a uma categoria regulatória própria: o Produto de Cannabis. Trata-se, portanto, de uma classificação distinta da categoria de Medicamento Fitoterápico.

"Cannabis medicinal" é uma expressão utilizada para se referir ao uso terapêutico da Cannabis sativa e dos produtos obtidos a partir dela, como extratos e canabinoides.

Para compreender como os derivados da Cannabis sativa são classificados no Brasil, é importante conhecer primeiro o que caracteriza um medicamento fitoterápico segundo a legislação sanitária.

O que são medicamentos fitoterápicos?

Medicamentos fitoterápicos são produtos obtidos exclusivamente a partir de matérias-primas ativas de origem vegetal. De acordo com as RDCs nº 948/2024 e nº 1.004/2025, a Anvisa os classifica em duas categorias:

  • Medicamento Fitoterápico (MF): medicamento integralmente obtido a partir de plantas, submetido a um processo de industrialização com padronização da quantidade e da forma de uso. Seus princípios ativos podem ser extraídos das raízes, do caule, das folhas, das flores ou das sementes de plantas medicinais.
  • Produto Tradicional Fitoterápico (PTF): categoria de fitoterápico industrializado cuja autorização se baseia no uso tradicional seguro e efetivo, comprovado por documentação técnico-científica ou por histórico de uso de, no mínimo, 30 anos, período em que o produto se mostrou seguro e eficaz para a indicação pretendida. Esses produtos não passam por estudos clínicos e só podem ser indicados para doenças consideradas não graves ou que não exijam acompanhamento médico. Não possuem bula, mas vêm acompanhados de um folheto informativo, uma espécie de bula simplificada.

O princípio ativo dos fitoterápicos deve ser, obrigatoriamente, o fitocomplexo: o conjunto de todas as substâncias que a planta produz naturalmente — como flavonoides, alcaloides e taninos —, agindo em conjunto para gerar o efeito terapêutico.

Por isso, a matéria-prima ativa deve ser de origem vegetal, seja a própria planta medicinal, seja um derivado vegetal, como extratos, tinturas, óleos fixos, ceras e outros preparados obtidos a partir dela. A legislação, no entanto, não permite que o princípio ativo seja uma substância isolada da planta.

Após o processamento, esses derivados podem ser formulados em diferentes formas farmacêuticas, como cápsulas, comprimidos, soluções, xaropes, pomadas e cremes.

O que é um Produto de Cannabis?

O Produto de Cannabis é uma categoria regulatória criada pela Anvisa para permitir a fabricação, a importação e a comercialização de determinados derivados da Cannabis sativa destinados ao uso medicinal.

Essa categoria foi instituída pela RDC nº 327/2019 e, em 2026, passou a ser regulamentada pela RDC nº 1.015/2026, atualmente em vigor. A nova norma atualizou as regras de fabricação, importação, comercialização, controle de qualidade e monitoramento sanitário desses produtos.

Para entender em detalhes como o CBD é tratado pela legislação brasileira, confira o artigo completo sobre o tema.

Entre os compostos ativos da Cannabis medicinal, destacam-se os fitocanabinoides CBD (canabidiol) e o THC (tetraidrocanabinol).

Diferentemente dos fitoterápicos, os Produtos de Cannabis podem ter em sua composição desde substâncias isoladas até extratos com múltiplos compostos da planta. Essa composição varia conforme o tipo de extrato utilizado:

  • CBD isolado: contém apenas canabidiol (CBD) como princípio ativo — uma substância isolada da planta —, sem os efeitos psicoativos típicos do THC.
  • Extrato full spectrum: preserva diversos compostos naturalmente presentes na planta, incluindo fitocanabinoides (como CBD, THC e CBG), terpenos e flavonoides.
  • Extrato broad spectrum: semelhante ao full spectrum, mas passa por processos que removem o THC, preservando os demais componentes da planta.

Por que a Cannabis não entra na categoria de fitoterápicos?

Embora os produtos de Cannabis tenham origem em uma planta medicinal (a Cannabis sativa), quando a Anvisa regulamentou o acesso a esses produtos, entendeu que a maior parte deles ainda não reunia os requisitos necessários para ser registrada como medicamento — inclusive como fitoterápico.

Ao mesmo tempo, havia uma demanda urgente por parte dos pacientes. Por isso, a agência criou uma categoria regulatória própria, denominada Produto de Cannabis, com regras específicas e um processo de autorização sanitária diferente do registro de medicamentos.

A própria Anvisa afirma, na exposição de motivos da RDC nº 1.015/2026, que essa categoria foi criada justamente para viabilizar o acesso enquanto os produtos ainda não percorriam a via convencional de registro de medicamentos.

Ou seja, o motivo não é que a Cannabis "não possa" ser um fitoterápico — e sim que a Anvisa optou por criar uma categoria específica para esses produtos.

Diferença entre Produto de Cannabis e Medicamento Fitoterápico

A tabela abaixo resume as principais diferenças entre essas duas categorias.

Critério

Base legal

Produto de CannabisRDC nº 1.015/2026
Medicamento FitoterápicoRDC nº 1.004/2025 e RDC nº 948/2024
Critério

Classificação pela Anvisa

Produto de CannabisProduto de Cannabis
Medicamento FitoterápicoMedicamento Fitoterápico (MF) ou Produto Tradicional Fitoterápico (PTF)
Critério

Composição ativa

Produto de CannabisPode conter CBD isolado ou extratos de Cannabis sativa, como full spectrum e broad spectrum.
Medicamento FitoterápicoDeve conter exclusivamente derivados vegetais, cujo efeito terapêutico decorre do fitocomplexo, sendo vedado o uso de substâncias ativas isoladas.

Conclusão

No fim, essa distinção regulatória não é apenas uma questão técnica — ela tem efeitos concretos na vida de quem depende desses produtos. É ela que determina, por exemplo, os requisitos de qualidade exigidos na fabricação, os caminhos possíveis para acesso (como a prescrição, a importação ou a venda em farmácias) e até o tipo de informação disponibilizada ao paciente na embalagem.

Por isso, ao buscar um Produto de Cannabis, vale sempre verificar sua situação regulatória junto à Anvisa e conversar com um profissional de saúde sobre a indicação mais adequada ao seu caso. Como se trata de um campo em constante atualização normativa, é recomendável acompanhar as publicações oficiais da agência para se manter informado sobre eventuais mudanças nas regras.

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Dúvidas frequentes

Por que o canabidiol (CBD) isolado não é considerado um Medicamento Fitoterápico?

Porque a legislação da Anvisa determina que os Medicamentos Fitoterápicos tenham seu efeito terapêutico baseado no fitocomplexo, ou seja, no conjunto de substâncias naturalmente presentes na planta. Como o CBD isolado contém apenas um dos compostos da Cannabis sativa, ele não atende aos critérios dessa categoria.

Qual é a principal diferença entre Produto de Cannabis e Medicamento Fitoterápico?

A principal diferença está na classificação regulatória. O Produto de Cannabis pertence a uma categoria específica criada para os derivados da Cannabis sativa, enquanto o Medicamento Fitoterápico integra outra categoria regulatória, com critérios próprios de composição, registro e comercialização.

É preciso receita médica para comprar Produtos de Cannabis?

Sim. Todos os Produtos de Cannabis autorizados pela Anvisa exigem prescrição médica. O tipo de receita varia conforme a composição do produto e, principalmente, o teor de THC.

Um Produto de Cannabis pode se tornar um medicamento?

Sim. Desde que o fabricante cumpra todos os requisitos exigidos pela Anvisa para o registro de medicamentos, incluindo a apresentação das evidências científicas de qualidade, segurança e eficácia.

Qual é a diferença entre um extrato *full spectrum* e um extrato *broad spectrum*?

O extrato full spectrum preserva diversos compostos naturalmente presentes na Cannabis sativa, incluindo fitocanabinoides, terpenos, flavonoides e pequenas quantidades de THC. Já o extrato broad spectrum também mantém vários desses compostos, mas passa por processos que removem o THC.

Todo produto de origem vegetal é considerado um Medicamento Fitoterápico?

Não. A origem vegetal, por si só, não determina a classificação de um produto. Para ser considerado um Medicamento Fitoterápico, ele deve atender aos critérios estabelecidos pela Anvisa para essa categoria.

Todo Produto de Cannabis contém THC?

Não. Existem Produtos de Cannabis formulados apenas com canabidiol (CBD), enquanto outros contêm combinações de CBD, THC e outros fitocanabinoides. A composição varia conforme a formulação autorizada pela Anvisa.

Contribuidores:

Andrea Vieira

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