A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por crises recorrentes que podem comprometer a qualidade de vida. Os tratamentos convencionais continuam sendo a primeira escolha, enquanto a cannabis medicinal é investigada como possibilidade complementar para pacientes selecionados.

- Medicamentos convencionais continuam sendo a base do tratamento agudo e preventivo da enxaqueca.
- A evidência sobre cannabis medicinal ainda é limitada e não permite considerá-la substituta dos tratamentos recomendados.
- CBD e THC possuem mecanismos, efeitos adversos e potencial de interação diferentes dos analgésicos e de outros medicamentos para enxaqueca.
- A escolha deve ser individualizada e acompanhada por profissional habilitado.
A enxaqueca é uma doença neurológica crônica marcada por crises recorrentes de dor de cabeça, frequentemente acompanhadas por náusea e sensibilidade à luz ou ao som. O tratamento pode incluir medidas para interromper a crise e estratégias preventivas para reduzir a frequência e o impacto dos episódios.
Embora os medicamentos convencionais funcionem para muitas pessoas, resposta insuficiente, contraindicações ou efeitos adversos podem exigir ajustes. Nesse contexto, canabinoides como o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC) vêm sendo pesquisados. Isso não significa, porém, que tenham o mesmo nível de evidência ou a mesma função dos tratamentos recomendados em diretrizes.
Como é feito o tratamento da enxaqueca?
O plano depende da frequência das crises, da intensidade, dos sintomas associados, das condições clínicas e da resposta anterior. No tratamento agudo, o profissional pode considerar analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos específicos para enxaqueca, como triptanos, quando apropriados.
Para pessoas com crises frequentes ou incapacitantes, existem opções preventivas, incluindo diferentes classes de medicamentos e terapias direcionadas ao peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Sono regular, alimentação, atividade física e identificação de gatilhos também podem integrar o cuidado, sem substituir a avaliação clínica.
O uso frequente de medicamentos para a crise merece atenção porque pode contribuir para cefaleia por uso excessivo de medicação. A prevenção e o acompanhamento ajudam a reduzir esse risco.
Como a cannabis medicinal pode atuar na enxaqueca?
O sistema endocanabinoide participa da modulação da dor e de processos neurológicos. O THC se liga principalmente a receptores canabinoides, enquanto o CBD atua de maneira indireta e também influencia outros alvos biológicos.
Estudos pré-clínicos investigam efeitos sobre a transmissão da dor, a atividade trigeminovascular e mediadores como o CGRP. Esses mecanismos ajudam a formular hipóteses, mas não comprovam eficácia em pessoas.
O que os estudos mostram sobre cannabis medicinal e enxaqueca?
A maior parte da literatura clínica disponível é formada por estudos retrospectivos e observacionais. Alguns encontraram associação entre o uso de cannabis e menor frequência ou intensidade das crises, mas esses desenhos não conseguem demonstrar que a cannabis foi a causa da melhora e apresentam diferenças importantes entre produtos, vias e perfis de pacientes.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 apontou resultados favoráveis em parte dos estudos incluídos, mas também ressaltou a necessidade de ensaios clínicos e acompanhamento mais prolongado. Os dados ainda não permitem concluir que óleos sublinguais, CBD isolado ou combinações de CBD e THC sejam eficazes para interromper ou prevenir crises.
Também há um sinal de segurança que exige cautela: em um estudo retrospectivo com pessoas com enxaqueca crônica, o uso de cannabis esteve associado a maior prevalência de cefaleia por uso excessivo de medicação. A associação não prova causalidade, mas impede afirmar que a cannabis esteja livre desse problema.
Cannabis medicinal ou analgésicos: qual é a melhor opção?
Para a maioria dos pacientes, os tratamentos convencionais continuam sendo a primeira escolha porque possuem evidências mais consolidadas e recomendações clínicas específicas. A cannabis medicinal pode ser discutida como abordagem complementar em situações selecionadas, especialmente quando a resposta ou a tolerabilidade às opções disponíveis é insatisfatória.
Não se trata de escolher um vencedor entre duas alternativas equivalentes. Analgésicos representam apenas uma parte do tratamento convencional, que também pode incluir medicamentos específicos para a crise e terapias preventivas.
| Critério | Tratamentos convencionais | Cannabis medicinal |
|---|---|---|
| Papel atual | Base do tratamento agudo e preventivo | Possibilidade complementar em investigação |
| Evidência | Mais consolidada e respaldada por recomendações clínicas | Ainda limitada e heterogênea |
| Durante a crise | Há opções específicas conforme o perfil do paciente | Não há evidência suficiente para recomendar uma formulação padronizada |
| Prevenção | Existem diferentes classes com eficácia estudada | Predominam dados observacionais; não há formulação preventiva padronizada |
| Riscos | Dependem da classe; uso excessivo de alguns medicamentos pode agravar a cefaleia | Pode causar efeitos adversos, interações e alterações associadas ao THC; o risco no uso prolongado ainda precisa de estudo |
| Acompanhamento | Necessário para escolher e ajustar a estratégia | Essencial para avaliar indicação, produto, interações e resposta |
Papel atual
Base do tratamento agudo e preventivo
Possibilidade complementar em investigação
Evidência
Mais consolidada e respaldada por recomendações clínicas
Ainda limitada e heterogênea
Durante a crise
Há opções específicas conforme o perfil do paciente
Não há evidência suficiente para recomendar uma formulação padronizada
Prevenção
Existem diferentes classes com eficácia estudada
Predominam dados observacionais; não há formulação preventiva padronizada
Riscos
Dependem da classe; uso excessivo de alguns medicamentos pode agravar a cefaleia
Pode causar efeitos adversos, interações e alterações associadas ao THC; o risco no uso prolongado ainda precisa de estudo
Acompanhamento
Necessário para escolher e ajustar a estratégia
Essencial para avaliar indicação, produto, interações e resposta
Quais são as limitações dos tratamentos convencionais?
Mesmo com diversas opções, algumas pessoas continuam com crises frequentes ou incapacitantes. Entre as limitações possíveis estão resposta incompleta, efeitos adversos, contraindicações e dificuldade de adesão ao tratamento preventivo.
Essas limitações não tornam a cannabis automaticamente superior. Em muitos casos, o próximo passo pode ser ajustar o tratamento, investigar o diagnóstico, introduzir prevenção ou considerar outra classe terapêutica.
Quais formulações de cannabis são estudadas?
Os estudos empregam produtos e vias muito diferentes, o que dificulta a comparação. Na prática clínica brasileira, o óleo sublingual é uma das formas consideradas sob prescrição, mas ainda não há evidência suficiente para indicar uma proporção universal de CBD e THC para enxaqueca.
Produtos com CBD isolado e extratos com outros canabinoides não podem ser considerados equivalentes. Também não está demonstrado que formulações full spectrum ou baseadas no chamado efeito entourage sejam superiores no tratamento da enxaqueca.
A presença de THC pode produzir alterações de percepção, atenção e coordenação, além de outros efeitos adversos. Por isso, composição e contexto de uso precisam ser avaliados individualmente.
Cannabis medicinal pode ser associada aos medicamentos tradicionais?
A associação pode ser considerada por um profissional, mas não deve ser iniciada por conta própria. CBD e THC podem interferir em enzimas envolvidas no metabolismo de medicamentos, e a relevância clínica varia conforme o produto, a exposição e os demais fármacos utilizados.
Antes de iniciar o tratamento, é importante informar todos os medicamentos, suplementos e fitoterápicos em uso. Qualquer redução ou interrupção de analgésico, triptano ou tratamento preventivo deve ser decidida pelo profissional responsável.
Conclusão
Os tratamentos convencionais permanecem como base do cuidado da enxaqueca. A cannabis medicinal apresenta sinais iniciais de possível benefício, mas a evidência ainda é insuficiente para colocá-la no mesmo nível das terapias recomendadas ou tratá-la como substituta universal.
Para pacientes selecionados, ela pode ser discutida como parte de um plano individualizado, com objetivos mensuráveis, acompanhamento e revisão periódica de benefícios, efeitos adversos e interações.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico, prescrição ou acompanhamento por profissional de saúde. Não inicie, interrompa ou altere tratamentos por conta própria.

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A cannabis medicinal substitui os analgésicos durante uma crise de enxaqueca?
Não de forma geral. Os tratamentos convencionais continuam sendo a primeira escolha. A cannabis pode ser discutida como abordagem complementar em casos selecionados, mas não deve substituir medicamentos prescritos sem avaliação profissional.
Cannabis medicinal pode causar cefaleia por uso excessivo?
Ainda não há resposta definitiva. Um estudo retrospectivo encontrou associação entre uso de cannabis e maior prevalência de cefaleia por uso excessivo de medicação em pessoas com enxaqueca crônica. Como o estudo não prova causalidade, o risco precisa ser avaliado com cautela e acompanhamento.
Quem pode conversar com o médico sobre cannabis medicinal para enxaqueca?
Pessoas com controle insuficiente, efeitos adversos ou contraindicações às opções disponíveis podem discutir outras estratégias com o profissional. A decisão depende do diagnóstico, do histórico clínico, dos tratamentos já testados e dos riscos individuais.
O THC pode causar efeitos psicoativos?
Sim. O THC pode alterar percepção, atenção, memória e coordenação. A intensidade varia conforme o produto e a pessoa, e esses efeitos precisam ser considerados na avaliação de segurança.
Quanto tempo a cannabis medicinal leva para prevenir crises?
Não existe um prazo comprovado e aplicável a todos. Os estudos ainda não definiram uma formulação preventiva padronizada para enxaqueca, e a resposta pode variar. O acompanhamento deve usar metas clínicas e períodos de reavaliação definidos pelo profissional.
Quais cuidados são importantes antes de usar cannabis medicinal?
É necessário avaliar gestação ou amamentação, histórico de transtornos psicóticos, doenças clínicas, risco de efeitos associados ao THC e possíveis interações medicamentosas. O perfil de segurança também varia conforme a composição do produto.
Cannabis medicinal pode ser usada junto com medicamentos para enxaqueca?
A associação pode ser considerada, mas requer revisão de todos os medicamentos em uso. CBD e THC podem interferir no metabolismo de alguns fármacos. Nenhum medicamento deve ser reduzido ou suspenso sem orientação profissional.
Referências
- Puledda F. et al. International Headache Society global practice recommendations for the acute pharmacological treatment of migraine. Cephalalgia, 2024. PubMed.
- Puledda F. et al. International Headache Society Global Practice Recommendations for Preventive Pharmacological Treatment of Migraine. Cephalalgia, 2024. PubMed.
- Sherpa M. L. et al. Efficacy and Safety of Medical Marijuana in Migraine Headache: A Systematic Review. Cureus, 2022. PubMed.
- Rhyne D. N. et al. Effects of Medical Marijuana on Migraine Headache Frequency in an Adult Population. Pharmacotherapy, 2016. PubMed.
- Zhang N.; Woldeamanuel Y. W. Medication overuse headache in patients with chronic migraine using cannabis: A case-referent study. Headache, 2021. PubMed.
- Smith S. A. et al. Effects of cannabidiol and Δ9-tetrahydrocannabinol on cytochrome P450 enzymes: a systematic review. Drug Metabolism Reviews, 2024. PubMed.
- Hird M. A.; Sandoe C. H. Medication Overuse Headache: an Updated Review and Clinical Recommendations on Management. Current Neurology and Neuroscience Reports, 2023. PubMed.




