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O CBD pode interferir no efeito do anticoncepcional?

8 min de leitura

Neste artigo, você vai entender como o CBD e o anticoncepcional interagem no organismo, quais fatores influenciam essa interação e quando vale conversar com o ginecologista.

CBD e anticoncepcional: dúvidas sobre a combinação
  • Os principais medicamentos que reduzem a eficácia do anticoncepcional são indutores enzimáticos.
  • O tipo de anticoncepcional influencia o risco de interação.
  • O ginecologista deve ser informado sobre o uso de CBD.
  • O CBD e os hormônios do anticoncepcional têm uma enzima em comum no seu metabolismo, a CYP3A4.

Se você usa óleo de canabidiol (CBD) e toma pílula, é natural se perguntar se um pode atrapalhar o outro e aumentar o risco de uma gravidez não planejada. Até o momento, não há evidências de que o CBD reduza a eficácia do anticoncepcional. Ainda assim, essa interação foi pouco estudada, e por isso vale entender o que já se sabe.

Como o organismo metaboliza o CBD e os anticoncepcionais hormonais?

O CBD é uma substância lipofílica, ou seja, tem afinidade por gorduras. Depois de absorvido, ele é metabolizado no fígado, principalmente pelas enzimas CYP2C19 e CYP3A4, que o convertem em compostos que o corpo consegue eliminar. Além de ser processado por essas enzimas, o CBD também pode inibir a atividade delas, reduzindo temporariamente a capacidade do fígado de metabolizar outras substâncias que usam a mesma via.

Os hormônios sintéticos dos anticoncepcionais, como o etinilestradiol e progestagênios como o levonorgestrel e o etonogestrel, também são eliminados pelo fígado, e a CYP3A4 é uma das principais enzimas envolvidas nesse processo. Isso vale tanto para a pílula quanto para métodos de outras vias, como adesivo, anel vaginal e implante. Para manter o bloqueio da ovulação, esses hormônios precisam circular no sangue em concentração adequada e relativamente constante.

Como o CBD pode inibir a CYP3A4, o mecanismo farmacológico sugere que ele tenderia a desacelerar a eliminação desses hormônios, mantendo-os no sangue por mais tempo e, possivelmente, em concentrações um pouco mais altas. Esse efeito, porém, ainda não foi confirmado em estudos clínicos com as doses de CBD normalmente usadas. E, como veremos a seguir, é justamente a direção dessa interação que define se um medicamento compromete ou não a eficácia do anticoncepcional.

Quais medicamentos realmente reduzem a eficácia do anticoncepcional?

A maioria dos medicamentos que comprometem o efeito do anticoncepcional age como indutor enzimático. Eles estimulam o fígado a produzir mais enzimas do citocromo P450, especialmente a CYP3A4. Com mais enzimas em atividade, o corpo metaboliza e elimina os hormônios do anticoncepcional mais rápido do que o normal. Como resultado, os níveis de estrogênio e progestagênio no sangue caem abaixo do necessário para bloquear a ovulação, e o risco de gravidez aumenta.

Principais indutores enzimáticos que afetam os anticoncepcionais hormonais:

  • Anticonvulsivantes: fenobarbital, fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina, primidona e topiramato (este último em doses acima de 200 mg por dia).
  • Antibióticos para tuberculose e hanseníase: rifampicina e rifabutina.
  • Antirretrovirais (HIV): efavirenz.
  • Fitoterápicos: erva-de-são-joão (Hypericum perforatum).

Por que o CBD é diferente desses medicamentos?

O CBD (canabidiol) se diferencia dos medicamentos citados porque atua principalmente como inibidor enzimático, e não como indutor. Enquanto os indutores aceleram o trabalho do fígado e fazem os hormônios do anticoncepcional serem eliminados mais rápido, o CBD tende a fazer o oposto. Em estudos de laboratório, ele reduz a atividade de enzimas como a CYP3A4, o que pode desacelerar o metabolismo de outras substâncias que dependem delas. Em humanos, o efeito mais bem documentado é sobre outra enzima, a CYP2C19, e o impacto sobre a CYP3A4 nas doses habituais parece pequeno.

Na prática, isso sugere que o CBD não deveria baixar os níveis hormonais, e sim mantê-los ou até elevá-los levemente. Além do mecanismo, o que reforça essa conclusão é que, até hoje, não há relatos clínicos de falha do anticoncepcional associada ao CBD. Ainda assim, os dados clínicos específicos ainda são limitados.

O CBD pode aumentar os efeitos colaterais do anticoncepcional?

É possível. Como o CBD tende a desacelerar a eliminação dos hormônios, eles poderiam permanecer em concentração um pouco mais alta no sangue e acentuar alguns efeitos já conhecidos do anticoncepcional, como náusea, dor de cabeça, sensibilidade nas mamas, inchaço e alterações de humor.

Até o momento, porém, não há estudos mostrando que doses habituais de CBD elevem os hormônios a ponto de provocar esses efeitos. As interações relevantes do canabidiol foram observadas principalmente em doses altas, como as usadas no tratamento de algumas formas de epilepsia, e com outros medicamentos, não com contraceptivos.

Uma dúvida frequente é se essa interação poderia aumentar o risco de trombose, já que o estrogênio é o principal responsável por esse efeito adverso dos anticoncepcionais combinados. Não há evidências de que o uso de CBD aumente esse risco. Ainda assim, mulheres com fatores de risco para trombose, como tabagismo, enxaqueca com aura, obesidade ou histórico familiar, devem informar o médico sobre todos os produtos que usam, incluindo o canabidiol.

O próprio CBD também tem efeitos colaterais, como sonolência, cansaço, diarreia e alterações no apetite, além de possíveis alterações nas enzimas do fígado em doses mais altas. Por isso, se surgirem sintomas novos depois de começar o tratamento, o ideal é conversar com o médico para entender a causa, em vez de atribuí-los automaticamente a uma interação com o anticoncepcional.

O tipo de anticoncepcional faz diferença?

O tipo de anticoncepcional pode influenciar o grau de exposição a uma possível interação com o CBD. Dois fatores pesam nessa avaliação: a via de administração, isto é, se o hormônio passa primeiro pelo estômago e pelo fígado ou é absorvido diretamente para o sangue, e a composição hormonal, se o método combina estrogênio e progestagênio ou contém apenas progestagênio.

  • Pílula combinada (estrogênio + progestagênio): por ser tomada por via oral, passa pelo fígado logo após a absorção e é metabolizada principalmente pela CYP3A4, enzima que o CBD pode inibir. Caso os níveis hormonais aumentem, efeitos como náusea, sensibilidade nas mamas e dor de cabeça podem se tornar mais perceptíveis.
  • Minipílula (só progestagênio): também passa pelo fígado após a absorção. Por não conter estrogênio, não está associada aos efeitos colaterais desse hormônio. O efeito mais comum do método, o sangramento irregular, não está relacionado a níveis hormonais elevados.
  • Adesivo e anel vaginal: os hormônios são absorvidos diretamente para o sangue, sem a primeira passagem pelo fígado. A eliminação, no entanto, ocorre no fígado, e ambos os métodos contêm estrogênio, de modo que alterações nos níveis hormonais permanecem possíveis.
  • Implante subdérmico: libera etonogestrel de forma contínua, sem passar pelo estômago. Como esse hormônio é metabolizado pela CYP3A4, o CBD poderia elevar levemente seus níveis no sangue, sem efeito sobre a eficácia.
  • Injetável trimestral: contém medroxiprogesterona em dose elevada, o que mantém o efeito contraceptivo com ampla margem. O método é pouco suscetível a interações com substâncias que atuam nas enzimas do fígado.
  • DIU hormonal (Mirena, Kyleena): libera levonorgestrel principalmente no útero, e a quantidade que chega à circulação é baixa. A possibilidade de interação com o CBD é, portanto, reduzida.
  • DIU de cobre ou de prata: não contém hormônios, portanto não há interação hormonal com o CBD.

O THC também interfere no anticoncepcional?

Assim como o CBD, o THC (tetra-hidrocanabinol) é metabolizado no fígado, principalmente pelas enzimas CYP2C9 e CYP3A4. Embora compartilhe parte dessa via com os hormônios contraceptivos, não há evidências clínicas de que o THC reduza a eficácia do anticoncepcional.

Além disso, na maioria dos tratamentos médicos a quantidade de THC é baixa, e o teor varia conforme o tipo de produto:

  • Isolados: contêm apenas CBD, sem THC.
  • Broad spectrum (amplo espectro): reúnem CBD e outros canabinoides, com o THC removido ou presente apenas em traços.
  • Full spectrum (espectro completo): contêm CBD, THC e outros canabinoides em proporções definidas na formulação. No Brasil, grande parte dos produtos autorizados pela Anvisa tem até 0,2% de THC, embora concentrações maiores possam ser prescritas em situações específicas.

Conclusão

O uso de CBD não precisa ser um motivo de insegurança para quem usa anticoncepcional. Como em qualquer tratamento, a melhor escolha é aquela feita com informação e acompanhamento: manter o diálogo aberto com os profissionais de saúde, observar como o próprio corpo responde e buscar orientação sempre que surgir alguma dúvida.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

Usa CBD e anticoncepcional e ficou com dúvidas? Converse com um médico sobre os medicamentos que você utiliza e os cuidados necessários durante o tratamento.

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Dúvidas frequentes

O óleo de cannabis interfere na pílula do dia seguinte?

Não há evidência de que o CBD reduza a eficácia da contracepção de emergência. A preocupação real existe com indutores enzimáticos, como rifampicina e alguns anticonvulsivantes, que podem exigir ajuste de dose ou outro método. Em caso de dúvida, o farmacêutico pode orientar no momento da compra.

O uso de CBD pode causar sangramento de escape em quem toma pílula?

Não há estudos mostrando essa relação. Sangramentos de escape são comuns com anticoncepcionais hormonais, principalmente nos primeiros meses de uso, após esquecimentos ou em pílulas de baixa dosagem. Se o sangramento surgir depois de começar o CBD e persistir, vale relatar ao ginecologista para investigar a causa.

Diarreia ou vômito causados pelo CBD podem afetar a pílula?

Podem, assim como qualquer outra causa desses sintomas. Se houver vômito em até três horas após tomar a pílula, ela pode não ter sido absorvida, e a orientação geral é tomar outra o quanto antes. Se os sintomas forem intensos ou durarem mais de um dia, siga as instruções da bula para doses esquecidas e use camisinha até a proteção ser restabelecida.

É preciso dar um intervalo entre a pílula e o óleo de CBD?

Não há evidência de que espaçar os horários faça diferença. Como a eventual inibição das enzimas pelo CBD dura mais do que algumas horas, separar as doses não mudaria a interação. O mais importante é tomar a pílula sempre no mesmo horário.

A pílula pode aumentar os efeitos colaterais do CBD?

É uma possibilidade. O etinilestradiol pode inibir levemente algumas enzimas que também processam o CBD, o que poderia elevar um pouco os níveis de canabidiol no sangue. Em doses habituais, isso não costuma ser relevante, mas quem sentir mais sonolência ou cansaço do que o esperado pode conversar com o médico sobre ajustar a dose.

Quem usa DIU Mirena, Kyleena ou DIU de cobre pode tomar CBD?

Sim. O DIU hormonal libera o levonorgestrel diretamente no útero, onde age principalmente de forma local, e pouca quantidade chega à circulação, então alterações no fígado têm impacto mínimo. O DIU de cobre não contém hormônios e, portanto, não sofre nenhuma interação com o CBD.

Tomar CBD e anticoncepcional juntos aumenta o risco de engravidar?

Pelo que se sabe hoje, não. Usado corretamente, o anticoncepcional mantém sua proteção mesmo com o uso de CBD. As causas mais comuns de falha continuam sendo esquecimento de doses, atrasos na troca do adesivo ou do anel e uso de medicamentos indutores enzimáticos, como a rifampicina.

Referências

BALACHANDRAN, P.; ELSOHLY, M.; HILL, K. P. Cannabidiol interactions with medications, illicit substances, and alcohol: a comprehensive review. Journal of General Internal Medicine, [s. l.], v. 36, n. 7, p. 2074-2084, 2021.

BROWN, J. D.; WINTERSTEIN, A. G. Potential adverse drug events and drug-drug interactions with medical and consumer cannabidiol (CBD) use. Journal of Clinical Medicine, Basel, v. 8, n. 7, p. 989, 2019.

FACULTY OF SEXUAL AND REPRODUCTIVE HEALTHCARE (FSRH). Clinical guidance: drug interactions with hormonal contraception. London: FSRH, May 2022.

Contribuidores:

Andrea Vieira

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