CBDCBD

Colírio com CBD: USP pesquisa tratamento para dor ocular

7 min de leitura

Neste artigo, você vai entender o que é o colírio de CBD desenvolvido pela USP, por que o canabidiol foi escolhido como princípio ativo e como funciona a nanoemulsão que leva a substância aos olhos.

Ilustração conceitual sobre a pesquisa de colírio com CBD da USP.
  • Os olhos têm receptores do sistema endocanabinoide, por meio dos quais o CBD é absorvido de forma natural
  • O colírio ainda não está à venda e não pode ser receitado.
  • A formulação utiliza exclusivamente o canabidiol (CBD) em grau farmacêutico isolado.
  • A pesquisa não teve como objetivo avaliar o colírio no tratamento do glaucoma.

O tratamento de doenças inflamatórias e degenerativas crônicas dos olhos ainda é um desafio para a oftalmologia. Hoje, muitos pacientes dependem de colírios com corticoides, que são eficazes, mas podem causar efeitos colaterais importantes quando usados por longos períodos, como catarata e aumento da pressão intraocular, um fator de risco para o glaucoma.

Para ampliar as opções de tratamento, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, desenvolveram um colírio de canabidiol (CBD) que pode se tornar uma alternativa aos corticoides. O diferencial está na formulação: uma nanoemulsão, tecnologia que facilita a chegada do CBD aos tecidos dos olhos.

O que é o colírio de CBD desenvolvido pela USP?

O colírio é uma formulação experimental à base de canabidiol, criada para aplicação direta nos olhos. O objetivo é tratar dores e inflamações oculares crônicas, com foco inicial na síndrome do olho seco.

A principal diferença em relação aos produtos de cannabis medicinal vendidos hoje nas farmácias está na forma de uso. Esses produtos são, em sua maioria, óleos, extratos ou cápsulas de uso oral, que agem no organismo como um todo. Já o colírio da USP atua diretamente no local da inflamação, o que pode permitir doses menores e menos efeitos no restante do corpo.

Por que o CBD foi escolhido como princípio ativo do colírio?

A escolha do canabidiol (CBD) pelos pesquisadores da USP se baseou em suas propriedades terapêuticas, entre elas:

  • Ação anti-inflamatória: Propriedade que reduz processos inflamatórios crônicos na superfície ocular.
  • Ação analgésica: Função de atenuar a dor e o desconforto sensorial local.
  • Potencial neuroprotetor: Atuação voltada à preservação das células nervosas e dos tecidos oculares contra danos degenerativos.
  • Potencial antioxidante: Mecanismo que combate o estresse oxidativo nas estruturas do olho.
  • Efeito hipotensor ocular: Potencial de redução da pressão ocular observado nos testes iniciais desta formulação.

Além disso, o CBD atua sobre o sistema endocanabinoide, uma rede de comunicação do próprio organismo que ajuda a regular funções como a dor e a inflamação. Esse sistema funciona a partir de substâncias produzidas pelo corpo, os endocanabinoides, que se ligam a receptores espalhados pelos tecidos, de forma semelhante a uma chave que se encaixa em uma fechadura.

Nos olhos, esses receptores estão presentes tanto na superfície quanto nas estruturas internas. Ao ser aplicado como colírio, o CBD age diretamente nesse sistema e influencia os sinais ligados à dor e à resposta inflamatória, o que pode contribuir para aliviar o desconforto e reduzir a inflamação no próprio local.

Outro fator que pesou na escolha foi o perfil de segurança da substância. Diferentemente do tetra-hidrocanabinol (THC), outro composto da cannabis, o CBD não tem efeitos psicoativos.

Como funciona a tecnologia de nanoemulsão oftálmica?

O CBD é uma substância oleosa e pouco solúvel em água, o que dificulta sua incorporação aos colírios, que têm base aquosa. Por isso, desenvolver um colírio com canabidiol exige um veículo capaz de acomodar a substância e preservar suas características.

A solução encontrada pelos pesquisadores foi a nanoemulsão oftálmica, um sistema de transporte de medicamentos em escala microscópica. Além de permitir a mistura do CBD ao colírio, essa tecnologia ajuda o princípio ativo a vencer as barreiras naturais do olho.

O funcionamento dessa tecnologia pode ser explicado em quatro etapas:

1. Divisão em gotículas minúsculas

A nanoemulsão é uma mistura estável de água e óleo. Por meio de processos de laboratório, o princípio ativo oleoso, como o CBD, é dividido em gotículas medidas em nanômetros, unidade que equivale a um milionésimo de milímetro. Essas gotículas ficam distribuídas de maneira uniforme no líquido, sem se separar.

2. Passagem pelas barreiras do olho

O olho conta com proteções naturais, como a lágrima e a córnea, que dificultam a entrada de substâncias externas. Graças ao tamanho reduzido das gotículas, o colírio consegue atravessar essas barreiras com mais facilidade e alcançar camadas mais profundas dos tecidos oculares do que os colírios convencionais.

3. Liberação gradual

Colírios tradicionais costumam ser eliminados rapidamente pelas lágrimas. Na nanoemulsão, as gotículas funcionam como pequenos reservatórios que liberam o medicamento de forma lenta e contínua, o que prolonga o tempo de ação no olho.

4. Menos irritação

Como o princípio ativo fica envolvido nas gotículas, há menos contato direto da substância concentrada com a superfície do olho. Isso tende a reduzir a irritação e a tornar a aplicação mais confortável.

O que os testes da pesquisa revelaram até o momento?

Os resultados ainda são preliminares, mas já trazem duas boas notícias.

A primeira é que o colírio parece ser bem tolerado pelos olhos. Segundo o pesquisador Eduardo Melani Rocha, os dados iniciais mostram que a nanoemulsão causa menos irritação do que outras formulações. Na prática, isso significa menos ardência e desconforto na hora de pingar, algo que faz diferença para quem precisa usar o colírio todos os dias, por longos períodos.

A segunda envolve a pressão dentro dos olhos. Quem usou o colírio com canabidiol teve uma queda significativa da pressão intraocular, o que não aconteceu com quem recebeu placebo. Esse resultado chama atenção porque é justamente o contrário do que pode acontecer com os corticoides, que tendem a aumentar a pressão ocular quando usados por muito tempo. Os dados foram apresentados em março de 2026, no 48º SIMASP, congresso de oftalmologia realizado em São Paulo.

Próximos passos e perspectivas de comercialização

Apesar dos resultados animadores, o colírio de canabidiol ainda tem um caminho pela frente antes de chegar às farmácias.

O primeiro passo já foi dado: a USP pediu a patente da formulação. Com isso, a tecnologia de nanoemulsão criada pelos pesquisadores fica protegida, e empresas farmacêuticas podem licenciá-la para produzir o medicamento no futuro.

Agora, o desafio é atrair o interesse da indústria. Além disso, o colírio ainda precisa passar por estudos clínicos maiores, com mais pacientes, e conseguir o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por enquanto, o colírio não está à venda e não pode ser receitado por médicos.

Conclusão

A pesquisa da USP com o colírio de CBD abre novas possibilidades para o tratamento de dores e inflamações nos olhos. O destaque está tanto no potencial do canabidiol quanto na nanoemulsão, tecnologia que permite levar a substância aos tecidos oculares. Os resultados iniciais são promissores, mas o colírio ainda depende de novos estudos e de parceria com a indústria para chegar aos pacientes.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

Imagem do Banner

Agende sua consulta

Agende sua primeira consulta na Click por apenas R$50 e converse com nossos médicos especialistas hoje mesmo.

Dúvidas frequentes

Para quais doenças oculares o colírio de CBD da USP está sendo testado?

O foco dos testes é a síndrome do olho seco, condição marcada por dor, desconforto e inflamação crônica na superfície dos olhos. O ensaio clínico foi feito com pacientes com olho seco associado à síndrome de Sjögren e também avaliou a segurança e a tolerância do colírio.

Qual é a vantagem do colírio de CBD em relação aos corticoides?

O uso prolongado de colírios com corticoides pode causar catarata e aumentar a pressão dentro dos olhos, o que eleva o risco de glaucoma. Nos testes iniciais, o colírio de CBD causou pouca irritação e ainda reduziu a pressão intraocular, um efeito oposto ao dos corticoides.

O colírio de CBD da USP serve para tratar glaucoma?

Não. Os testes indicaram que o colírio pode reduzir a pressão intraocular, mas a pesquisa foi feita para tratar o olho seco, e não o glaucoma. Para saber se ele funcionaria nesse caso, seriam necessários estudos específicos.

Por que o CBD precisa de uma formulação especial?

O CBD é uma substância oleosa e pouco solúvel em água, o que dificulta sua mistura aos colírios, que têm base aquosa. A nanoemulsão resolve esse problema: ela permite incorporar o CBD ao colírio, mantém a fórmula estável e ajuda a substância a chegar aos tecidos dos olhos.

Já é possível comprar o colírio de CBD da USP em farmácias?

Não. O colírio ainda está em fase de pesquisa e não tem autorização da Anvisa. Por isso, ele não está à venda em farmácias convencionais nem de manipulação e não pode ser receitado por médicos.

Quando o colírio de CBD vai chegar ao mercado?

Ainda não há data definida. A USP já pediu a patente da formulação e agora busca parcerias com a indústria farmacêutica. Antes de chegar às farmácias, o colírio precisa passar por estudos clínicos maiores, com mais pacientes, e obter o registro da Anvisa.

Referências

EL-REMESSY, Azza B. et al. Neuroprotective and blood-retinal barrier-preserving effects of cannabidiol in experimental diabetes. The American Journal of Pathology, v. 168, n. 1, p. 235–244, 2006.

GIACOMIN, Henrique; MARINO, Breno (produção). Momento Tecnologia #157: nanoemulsão à base de canabidiol. Jornal da USP: Rádio USP, 29 set. 2026. Podcast.

KISHORE, Ankita et al. Selection criteria for oils, surfactants, and co-surfactants in ocular nanoemulsion formulation: a mini review. Current Pharmaceutical Design, v. 31, n. 16, p. 1259–1269, 2025.

MARINO, Breno. USP desenvolve colírio à base de canabidiol para tratar inflamações nos olhos sem efeitos colaterais. Jornal da USP, São Paulo, 29 set. 2026. Atualizado em: 9 out. 2026.

ROCHA, Eduardo Melani. Sistemas de liberação de fármacos para tratamento de doenças do segmento anterior do olho. Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), RBR-7p43fkc. Ribeirão Preto: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2023.

TRAN, Van Nguyen et al. Cannabidiol nanoemulsion for eye treatment – Anti-inflammatory, wound healing activity and its bioavailability using in vitro human corneal substitute. International Journal of Pharmaceutics, v. 643, art. 123202, 2023.

Contribuidores:

Andrea Vieira

Andrea Vieira

Ver perfil

Ver mais artigos

Pessoa realizando uma avaliação cognitiva com acompanhamento profissional, ao lado de um frasco de óleo e de uma representação do cérebro.
Novo
CBDCBD
THCTHC

Benefícios do CBD: estudo mostra proteção à memória

17/10/2026

7 min de leitura

Leia mais sobre
Ilustração de um dente com placa bacteriana sob uma lupa, ao lado de um frasco de enxaguante e amostras de esmalte em laboratório.
Novo
CBDCBD

Enxaguante bucal com CBD contra a placa bacteriana

13/10/2026

5 min de leitura

Leia mais sobre
Atleta sentada em um colchonete descansando após o treino, com halter, garrafa de água e toalha ao lado.
ExercíciosExercícios
CBDCBD

Canabidiol como aliado na recuperação muscular

12/10/2026

9 min de leitura

Leia mais sobre
Ilustração de couro cabeludo com rarefação capilar e ampliação de folículos sob análise científica.
CBDCBD

CBD e alopecia: o que a ciência diz sobre o uso na queda de cabelo

12/10/2026

6 min de leitura

Leia mais sobre
Mulher conversando com uma profissional em ambiente acolhedor, com um frasco de óleo sobre a mesa e elementos de pesquisa ao fundo.
Saúde mentalSaúde mental
CBDCBD

CBD pode ajudar no borderline? Veja o que diz a ciência

07/10/2026

5 min de leitura

Leia mais sobre

Inscreva-se na nossa Newsletter

Receba novidades, dicas e conteúdos exclusivos no seu e-mail.