Neste artigo, você vai entender como o estudo foi realizado, quais resultados se destacaram e o que falta para essa proposta chegar à prática odontológica.

- O canabidiol está sendo investigado como ingrediente de enxaguantes para o controle da placa bacteriana.
- Os resultados ainda são preliminares e precisam ser confirmados em estudos clínicos
- A eficácia observada no estudo depende de concentrações e formulações controladas.
- A clorexidina segue eficaz e é a referência no controle da placa.
A clorexidina é um antisséptico de referência no controle da placa bacteriana, mas seu uso prolongado pode causar manchas nos dentes e alterações no paladar. A busca por alternativas com menos efeitos indesejados levou pesquisadores brasileiros a investigar o canabidiol (CBD) em enxaguantes bucais.
Publicado na revista científica Clinical Oral Investigations, o estudo conduzido pela Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP avaliou diferentes concentrações de CBD. A formulação a 0,05% se destacou por controlar o biofilme de maneira semelhante à clorexidina e provocar menor alteração na cor do esmalte, apontando um caminho promissor para novas pesquisas em odontologia.
Por que buscar uma alternativa à clorexidina?
A clorexidina é uma referência no controle químico da placa bacteriana, mas seu uso prolongado pode causar efeitos indesejados. Essa limitação motiva a busca por alternativas que mantenham a ação contra o biofilme e sejam mais confortáveis para o paciente. Entre os principais motivos estão:
- Manchas nos dentes: a alteração na cor é um dos efeitos conhecidos da clorexidina e pode comprometer a aparência do sorriso.
- Alterações no paladar: mudanças temporárias na percepção dos sabores podem causar incômodo durante o tratamento.
- Possibilidade de uso por mais tempo: quando há necessidade de controle antisséptico prolongado, alternativas com menos efeitos indesejados podem ampliar as opções do dentista.
Por que o CBD foi escolhido como alternativa à clorexidina?
O canabidiol (CBD) reúne ação antimicrobiana e benefícios que a clorexidina não oferece, como efeitos anti-inflamatórios e analgésicos. Os principais motivos que justificaram sua escolha para o estudo foram:
- Potencial antimicrobiano: pesquisas anteriores indicam que o CBD consegue danificar a membrana celular de bactérias, dificultando a formação do biofilme dental (placa bacteriana).
- Ação anti-inflamatória e analgésica: além de combater microrganismos, o CBD pode reduzir a inflamação e a dor na gengiva, o que é especialmente útil para pacientes em pós-operatório de cirurgias odontológicas ou com gengivite.
- Biocompatibilidade: o composto apresenta boa interação com os tecidos da boca, sem agredir células saudáveis nem causar descamação da mucosa, um efeito comum da clorexidina.
- Menor risco de manchas: a clorexidina se liga a pigmentos de alimentos e bebidas, como café, chá e vinho, o que escurece os dentes. O CBD não apresenta essa afinidade, preservando a estética do sorriso.
Como o estudo foi feito e o que ele revelou
O estudo adotou um modelo in situ, em que as amostras ficam expostas ao ambiente bucal dos participantes. Catorze voluntários usaram dispositivos removíveis com fragmentos de esmalte bovino, e cada um passou por etapas de sete dias com um tipo diferente de enxaguante: placebo, clorexidina a 0,12% e canabidiol nas concentrações de 0,01%, 0,05% e 0,1%. Parte das amostras também foi exposta à sacarose, para simular um desafio cariogênico, isto é, condições que favorecem o surgimento de cáries.
Vale destacar que o produto foi aplicado apenas nos fragmentos, e não diretamente nos dentes dos participantes. Ou seja, os resultados indicam o efeito do CBD sobre o esmalte em condições reais da boca, mas ainda não equivalem a um teste de uso clínico. Ao final de cada etapa, as pesquisadoras avaliaram o biofilme, a cor, a rugosidade (um esmalte mais áspero acumula placa com mais facilidade) e a microdureza do esmalte (que indica sua resistência).
Nas condições avaliadas, o CBD a 0,05% e a 0,1% controlou o biofilme de forma semelhante à clorexidina, enquanto a concentração de 0,01% teve efeito limitado e não impediu a perda de dureza do esmalte sob exposição à sacarose. A clorexidina, por sua vez, foi a que mais alterou a cor do esmalte. A concentração de 0,05% apresentou o desempenho mais equilibrado entre todos os critérios. Já a de 0,1% deixou o esmalte mais rugoso que a clorexidina sob exposição à sacarose, o que mostra que a concentração mais alta não foi a melhor em todos os aspectos.
Quadro comparativo: clorexidina e CBD a 0,05%
| Critério de comparação | Enxaguante com clorexidina (0,12%) | Enxaguante experimental com CBD (0,05%) |
|---|---|---|
| Controle do biofilme | Referência na ação antimicrobiana odontológica | Resultado semelhante à clorexidina nas condições testadas |
| Uso prolongado | Pode ser limitado por efeitos adversos | Potencial a ser avaliado em estudos mais longos |
| Cor dos dentes | Pode causar manchas; apresentou maior alteração de cor no estudo | Apresentou menor alteração de cor no esmalte |
| Paladar e mucosa | Pode alterar o paladar e provocar irritação | Esses efeitos ainda precisam ser avaliados no uso clínico |
Controle do biofilme
Referência na ação antimicrobiana odontológica
Resultado semelhante à clorexidina nas condições testadas
Uso prolongado
Pode ser limitado por efeitos adversos
Potencial a ser avaliado em estudos mais longos
Cor dos dentes
Pode causar manchas; apresentou maior alteração de cor no estudo
Apresentou menor alteração de cor no esmalte
Paladar e mucosa
Pode alterar o paladar e provocar irritação
Esses efeitos ainda precisam ser avaliados no uso clínico
Conclusão
A pesquisa brasileira aponta um caminho promissor para o desenvolvimento de enxaguantes com CBD. A formulação a 0,05% se destacou pelo equilíbrio entre controle do biofilme e preservação do esmalte, sem as alterações de cor associadas à clorexidina. O próximo passo é avaliar, em estudos clínicos, se esses resultados se mantêm quando o produto é usado diretamente pelos pacientes.
Até lá, a clorexidina continua sendo a referência no controle químico da placa bacteriana, e qualquer mudança no uso de enxaguantes deve ser orientada pelo dentista.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

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O enxaguante bucal com CBD já pode ser comprado nas farmácias?
A formulação testada pela USP é experimental. Seu uso clínico ainda depende de pesquisas com mais participantes e acompanhamento por períodos maiores para avaliar a segurança e a eficácia.
Por que os cientistas estão testando o CBD em produtos orais?
Por seu potencial de combater microrganismos envolvidos na formação da placa bacteriana. Os pesquisadores buscam uma alternativa que controle o biofilme com eficácia semelhante à clorexidina e provoque menos alterações na cor dos dentes.
O enxaguante com CBD pode manchar os dentes?
No estudo brasileiro, as formulações com CBD provocaram menor alteração na cor do esmalte do que a clorexidina. O resultado é favorável, mas não significa ausência de manchas em qualquer condição de uso.
O CBD usado em enxaguantes pode causar efeito psicoativo?
O CBD não provoca a sensação de “barato” associada ao THC. São substâncias diferentes, e o canabidiol, por si só, não produz esse efeito intoxicante.
Posso misturar óleo de CBD ao meu enxaguante em casa?
Não é recomendado. A pesquisa utilizou formulações e concentrações controladas, e os resultados variaram conforme a quantidade de CBD. Misturar óleo a um enxaguante comercial não reproduz o produto estudado nem garante os mesmos benefícios.
O enxaguante com CBD substitui a escovação e o fio dental?
Não. Enxaguantes são complementos da higiene bucal. A escovação com creme dental fluoretado e a limpeza entre os dentes continuam essenciais para remover a placa e cuidar dos dentes e das gengivas.
Quem usa clorexidina hoje deve interromper o tratamento?
Não. A pesquisa com CBD não muda a orientação de quem já recebeu indicação de clorexidina. Ela continua sendo utilizada no tratamento odontológico, e o tempo de uso deve seguir a prescrição do dentista.
Referências
PIMENTA, Anna Luísa Araujo et al. Effect of a cannabidiol-based mouthwash on dental enamel properties and biofilm control: an In situ study. Clinical Oral Investigations, v. 30, art. 307, 2026.
OLIVEIRA, Susana. Canabidiol é testado como alternativa à clorexidina em enxaguantes bucais. Jornal da USP, 1 set. 2026. Atualizado em: 16 set. 2026.




