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Pesquisa britânica testa CBD para sintomas nos nervos após quimioterapia

10 min de leitura

Neste artigo você vai entender como o estudo britânico ACTiON está testando o CBD para tratar os sintomas da neuropatia causada pela quimioterapia, quem pode participar da pesquisa e como o medicamento avaliado se diferencia dos óleos de canabidiol disponíveis no Brasil.

Pesquisa clínica sobre CBD e neuropatia após quimioterapia.
  • O medicamento experimental avaliado é o MRX1, uma formulação líquida de uso oral que reúne CBD e terpenos.
  • Exames de ressonância e análises de sangue investigam como o organismo responde ao CBD.
  • A avaliação vai além da dor e inclui sintomas da neuropatia, como formigamento e queimação, além da qualidade de vida e do uso de serviços de saúde.
  • Os resultados do ACTiON deverão indicar se há benefícios que justifiquem pesquisas maiores.

A neuropatia periférica induzida por quimioterapia (NPIQ) é um tipo de dano aos nervos periféricos provocado por determinados medicamentos usados no tratamento do câncer. Esses nervos levam as informações de sensibilidade e movimento entre o cérebro e a medula espinhal e o restante do corpo, especialmente as mãos e os pés. Quando as drogas da quimioterapia atacam as células tumorais, podem também lesionar as fibras desses nervos saudáveis.

O problema é frequente: a neuropatia pode afetar até 90% dos pacientes e causa dor de longo prazo em até metade deles. E vai muito além do desconforto físico. Ao comprometer funções sensoriais e motoras básicas, a NPIQ transforma tarefas simples do dia a dia em desafios dolorosos e exaustivos, afetando a autonomia e o bem-estar emocional de quem passou pelo tratamento.

Diante dessa condição debilitante, pesquisadores investigam o canabidiol como uma possível alternativa para aliviar os sintomas.

O que é o estudo ACTiON e qual é seu objetivo?

O ACTiON é um ensaio clínico britânico de fase II que investiga se o canabidiol pode aliviar a neuropatia periférica induzida por quimioterapia (NPIQ). A pesquisa é liderada pela professora Marie Fallon, da Universidade de Edimburgo, e financiada pelo National Institute for Health and Care Research (NIHR), por meio do programa Efficacy and Mechanism Evaluation (EME).

O medicamento testado é o MRX1, desenvolvido pela Ananda Pharma. Trata-se de uma solução oral de CBD praticamente livre de THC, avaliada no estudo com doses ajustadas conforme a resposta e a tolerância dos participantes.

O objetivo principal é verificar se o uso dessa solução por cinco semanas alivia a dor nervosa causada pela quimioterapia. Os resultados vão indicar se vale a pena realizar um estudo maior.

Como será feito o estudo ACTiON?

Para saber se o MRX1 realmente traz melhora, os pesquisadores vão comparar seus efeitos com os de um placebo, uma preparação com aparência e sabor semelhantes, mas sem os componentes ativos. O ensaio é randomizado, duplo-cego e cruzado, três características que tornam o resultado mais confiável.

Em um estudo comum, os pacientes são divididos em dois grupos: um recebe o remédio e o outro, o placebo. O problema é que as pessoas são diferentes entre si. Uma pode sentir mais dor, ter uma neuropatia mais grave ou reagir de outro jeito, e essas diferenças podem confundir o resultado.

Por isso, o ACTiON usa o formato cruzado: todos os participantes recebem os dois tratamentos, um de cada vez. Assim, a comparação é feita na mesma pessoa, entre o período com CBD e o período com placebo. Cada participante passa por três fases, que somam 12 semanas:

  1. Durante cinco semanas, recebe o MRX1 ou o placebo.
  2. Faz uma pausa de duas semanas para eliminar a substância do organismo.
  3. Por mais cinco semanas, recebe o tratamento oposto.

A ordem dos tratamentos é definida por sorteio, o que caracteriza o estudo como randomizado. Isso evita que a escolha de quem começa com o CBD ou com o placebo influencie os resultados. Além disso, o estudo é duplo-cego: nem o paciente nem a equipe sabem qual tratamento está sendo usado em cada fase. Esse cuidado impede que as expectativas de qualquer um dos lados interfiram na avaliação da dor.

A dose não é fixa. O paciente segue um esquema pré-definido e, a cada seis a oito dias, passa por uma avaliação médica, por telefone ou presencialmente, quando retira mais medicação na farmácia. Nessa conversa, o médico e o paciente decidem se a dose será aumentada, mantida, reduzida ou suspensa, pesando o alívio da dor contra possíveis efeitos colaterais.

Ao longo das fases, a equipe mede a dor nervosa com o questionário EORTC CIPN20 e acompanha também sono, ansiedade, depressão, função física, capacidade cognitiva e qualidade de vida.

Amostras de sangue ajudam a entender como o CBD afeta os canabinoides produzidos pelo próprio corpo e os marcadores de inflamação, e exames de ressonância magnética mostram se o tratamento provoca mudanças no cérebro.

Por que o estudo ACTiON usa ressonância magnética para avaliar a dor?

Muitas pesquisas sobre dor crônica dependem de questionários em que o paciente dá uma nota de 0 a 10 para o seu desconforto. Essas escalas são valiosas, mas o ACTiON vai além: inclui a ressonância magnética funcional em repouso, exame que mostra como as regiões do cérebro se comunicam.

Assim, em vez de apenas perguntar se a dor diminuiu, os pesquisadores da Universidade de Edimburgo vão observar se o tratamento com CBD provoca mudanças na atividade cerebral. Os exames investigam três pontos:

  • Circuito da dor hiperconectado: a dor neuropática crônica altera o funcionamento do cérebro e deixa conectadas demais as regiões que processam o sofrimento. O estudo vai verificar se o CBD consegue reduzir essa atividade exagerada.
  • Córtex cingulado anterior: essa área está ligada ao lado emocional da dor, ou seja, o quanto ela incomoda e desgasta. A ressonância vai comparar sua conectividade no início do tratamento e na quinta semana.
  • Dor e humor: a dor contínua costuma vir acompanhada de ansiedade e depressão. As imagens podem ajudar a entender se uma eventual melhora vem do alívio da dor nas mãos e nos pés ou de uma mudança na forma como o cérebro reage a ela.

Ao combinar os relatos dos pacientes com as imagens cerebrais, o ACTiON pode trazer evidências mais sólidas sobre o uso do canabidiol na neuropatia pós-quimioterapia. Se os resultados forem positivos, os pesquisadores poderão entender melhor como o CBD atua no sistema nervoso central para aliviar essa sequela do tratamento.

Quem são os pacientes elegíveis para a pesquisa?

O ACTiON está em andamento e, segundo o registro oficial, deve ser concluído em janeiro de 2027. A pesquisa é voltada a adultos que convivem com a neuropatia causada pela quimioterapia e que atendem a alguns critérios:

  • Ter 18 anos ou mais.
  • Ter feito quimioterapia com medicamentos capazes de lesionar os nervos.
  • Ter concluído o tratamento há pelo menos três meses.
  • Apresentar sintomas de neuropatia estáveis há no mínimo seis semanas.
  • Ter condições físicas e clínicas de fazer os exames de ressonância magnética.

Esses critérios têm uma razão. Logo após a quimioterapia, os sintomas da neuropatia ainda podem melhorar ou piorar por conta própria. Ao incluir apenas pacientes com o quadro estabilizado, os pesquisadores conseguem atribuir as mudanças observadas ao CBD, e não à evolução natural da condição.

O recrutamento é feito exclusivamente no Reino Unido, pela Universidade de Edimburgo, e não inclui pacientes de outros países.

Qual a diferença entre o MRX1 do estudo britânico e os óleos de CBD disponíveis no Brasil?

O MRX1 e os produtos de CBD isolado disponíveis no Brasil compartilham o mesmo princípio ativo: o canabidiol. Porém, ter CBD na composição não torna dois produtos automaticamente equivalentes. A comparação depende da fórmula, da concentração e das condições de uso.

1. Formulação

O MRX1 contém 100 mg de CBD isolado por mililitro, diluído em óleo de triglicerídeos de cadeia média (TCM), com um aromatizante próprio. Já os produtos disponíveis no Brasil podem apresentar diferentes composições:

  • CBD isolado: contém canabidiol purificado, sem os demais compostos do extrato.
  • Amplo espectro (broad spectrum): reúne CBD e outros compostos da planta, com o THC removido ou abaixo do limite de detecção.
  • Espectro completo (full spectrum): preserva diferentes compostos da planta, incluindo THC em quantidades variáveis.

A concentração de CBD, o óleo usado como base e os demais ingredientes também variam entre as marcas. Por isso, mesmo um produto de CBD isolado não é necessariamente equivalente ao MRX1: é preciso comparar a composição completa.

2. Controle de qualidade

O MRX1 utilizado na pesquisa segue especificações de fabricação e controle para uso em ensaio clínico. Isso não significa que os produtos brasileiros sejam necessariamente menos padronizados: aqueles autorizados pela Anvisa também devem cumprir requisitos de qualidade. A avaliação deve considerar o produto e sua forma de acesso.

3. Dose e ajuste do tratamento

No estudo ACTiON, a dose do MRX1 é calculada pelo peso corporal e começa baixa, com possibilidade de aumentos semanais conforme o alívio da dor e a tolerância ao tratamento. Nos produtos disponíveis no Brasil, a dose também é individualizada pelo médico. A diferença é que o estudo segue um protocolo previamente definido para avaliar a neuropatia causada pela quimioterapia, enquanto ainda não existe uma dose de CBD estabelecida para essa condição.

4. Evidências sobre os benefícios

O ACTiON investiga se o MRX1 pode aliviar os sintomas da neuropatia causada pela quimioterapia, comparando seus efeitos com os de um placebo. Essa avaliação ajudará a identificar se a melhora está relacionada ao medicamento e qual é a intensidade do benefício.

Os resultados serão específicos para a formulação e as doses utilizadas na pesquisa. Por isso, não poderão ser estendidos diretamente a todos os óleos de CBD disponíveis no Brasil, que podem apresentar outras concentrações e componentes. Isso não significa que esses produtos sejam inferiores, mas que compartilhar o mesmo princípio ativo não garante resultados iguais.

Conclusão

A neuropatia causada pela quimioterapia é uma das sequelas mais comuns do tratamento contra o câncer e pode afetar a rotina, o sono e o bem-estar emocional de quem já enfrentou uma longa jornada. Encontrar formas mais eficazes de aliviar esses sintomas é uma necessidade real para milhares de pacientes.

O estudo ACTiON representa um passo importante nessa direção. Com um desenho rigoroso, que compara o CBD ao placebo no mesmo paciente e ainda observa o que acontece no cérebro e no sangue, a pesquisa pode trazer respostas mais claras sobre o potencial do canabidiol nessa condição.

Os resultados devem sair nos próximos anos e, se forem positivos, poderão abrir caminho para estudos maiores e, no futuro, para novas opções de tratamento.

Enquanto isso, quem convive com a neuropatia e tem interesse no canabidiol não precisa esperar para buscar orientação. No Brasil, produtos à base de CBD já podem ser prescritos por médicos, que avaliam cada caso e indicam o tratamento mais adequado.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico, a prescrição ou a orientação de um profissional de saúde. Por isso, nunca inicie, interrompa ou altere qualquer tratamento sem orientação médica.

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Dúvidas frequentes

O canabidiol costuma ser bem tolerado no tratamento da dor nos nervos?

Na maioria dos casos, sim. A literatura médica costuma descrever o canabidiol (CBD) como bem tolerado, com perfil de segurança favorável em comparação a alguns analgésicos tradicionais usados para a dor neuropática. Ainda assim, a tolerância e a eficácia variam conforme a dose, a pureza do produto e as características de cada paciente.

Como o estudo garante que o efeito observado vem do canabidiol?

Além do uso de placebo e da distribuição dos participantes por sorteio, são feitos exames de urina no início e na oitava semana para confirmar que ninguém está usando outros produtos de cannabis. Isso reduz a interferência de fatores externos e permite atribuir com mais segurança ao MRX1 as mudanças observadas no formigamento, na queimação ou na dor, o que torna os resultados mais confiáveis.

O que as pesquisas já mostram sobre canabidiol para dor nos nervos?

Revisões científicas publicadas em 2025 indicam que medicamentos à base de cannabis podem aliviar a dor neuropática em parte dos pacientes, mas reforçam a necessidade de ensaios clínicos maiores e bem controlados. É justamente essa lacuna que estudos como o ACTiON buscam preencher.

Quanto tempo leva para o CBD fazer efeito na dor neuropática?

Não existe um prazo único: a resposta depende da dose, da formulação, da concentração do produto e de cada organismo. Também é importante diferenciar um eventual alívio imediato do efeito terapêutico, que costuma se construir ao longo de semanas de uso contínuo.

O CBD pode interagir com remédios usados depois do câncer, como hormonioterapia ou anticonvulsivantes?

Sim. O CBD pode interagir com medicamentos de hormonioterapia e com anticonvulsivantes. Isso acontece no fígado, onde o CBD compete pelas mesmas enzimas (do sistema citocromo P450) responsáveis por metabolizar e, em alguns casos, ativar esses remédios. Por isso, o uso deve sempre ser informado ao médico e acompanhado por ele.

Quem ainda está fazendo quimioterapia pode usar canabidiol?

Essa decisão deve ser tomada junto com o oncologista, com apoio de especialistas em dor quando necessário. O CBD pode interagir com medicamentos usados no tratamento do câncer, e as evidências sobre seus benefícios durante a quimioterapia ainda são limitadas. Quem tiver interesse em participar do estudo deve consultar a equipe de pesquisa sobre os critérios de inclusão.

Além da dor, o estudo avalia benefícios para o sistema de saúde?

Sim. Além da eficácia e da segurança do MRX1, o ACTiON avalia o impacto do tratamento na qualidade de vida e no uso de serviços de saúde. A análise econômica busca verificar se o canabidiol pode reduzir os gastos com saúde e com cuidadores

Referências

ALMUNTASHIRI, N.; EL SHARAZLY, B. M.; CARTER, W. G. Are cannabis-based medicines a useful treatment for neuropathic pain? A systematic review. Biomolecules, Basel, v. 15, n. 6, p. 816, 2025.

CHOI, J. et al. The use of cannabinoids in the treatment of peripheral neuropathy and neuropathic pain: a systematic review. The Journal of Hand Surgery, v. 50, n. 8, p. 954-965, ago. 2025.

FALLON, M. (Investigadora principal). A Phase II randomised cross-over trial of orAl Cannabinoid versus placebo in the Treatment of chemotherapy Induced peripheral neurOpathic paiN (ACTION). Edimburgo: University of Edinburgh, 2025. Registro ISRCTN15275553.

LYNCH, M. E.; CESAR-RITTENBERG, P.; HOHMANN, A. G. A double-blind, placebo-controlled, crossover pilot trial with extension using an oral mucosal cannabinoid extract for treatment of chemotherapy-induced neuropathic pain. Journal of Pain and Symptom Management, v. 47, n. 1, p. 166-173, 2014.

Contribuidores:

Andrea Vieira

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