Canabinoides

Nabilona: conheça o medicamento com ação semelhante ao THC

10 min de leitura

Neste artigo, você vai entender como a nabilona funciona, em quais situações ela pode ser indicada, quais são seus principais efeitos colaterais e como ela se compara a outros canabinoides, como o dronabinol.

Nabilona: medicamento canabinoide sintético desenvolvido em laboratório.
  • A nabilona é usada contra náuseas e vômitos da quimioterapia quando outros medicamentos não funcionam.
  • É um canabinoide sintético com estrutura semelhante à do THC.
  • Além dessa indicação, é estudada para dor crônica e pesadelos associados ao estresse pós-traumático.
  • Seus efeitos colaterais podem incluir sonolência, tontura e boca seca.

A nabilona é um análogo sintético do THC: sua estrutura química é semelhante, mas não idêntica à do delta-9-tetra-hidrocanabinol (Δ9-THC), principal componente psicoativo da Cannabis sativa. Ela é produzida em laboratório, sem ser extraída da planta, e apresenta modificações estruturais, como uma cadeia lateral mais longa e ramificada.

Sob o nome comercial Cesamet, recebeu sua primeira aprovação pela FDA, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, em 1985. A indicação foi o controle de náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia em pacientes que não respondiam adequadamente aos antieméticos convencionais, medicamentos usados para combater esses sintomas.

Desde então, a nabilona também passou a despertar o interesse de médicos e pesquisadores por possíveis aplicações em outras condições de saúde. Esses estudos ajudam a ampliar o conhecimento sobre o uso terapêutico dos canabinoides e a identificar em quais situações o medicamento pode trazer benefícios.

Para que a nabilona é indicada?

A principal indicação da nabilona é o controle de náuseas e vômitos causados pela quimioterapia em pessoas com câncer. Ela é reservada aos casos em que os tratamentos antieméticos convencionais não produzem uma resposta adequada. A escolha considera o controle dos sintomas, a tolerância aos medicamentos já utilizados e as necessidades de cada paciente.

A diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), publicada em 2024, reconhece a nabilona como uma das opções que podem ser acrescentadas ao tratamento de adultos com náuseas ou vômitos refratários, apesar de receberem a prevenção recomendada. Na prática, ela pode integrar uma estratégia complementar ou de resgate quando a combinação habitual de antieméticos não é suficiente.

Existe também interesse científico na náusea antecipatória, que aparece antes mesmo de uma nova sessão de quimioterapia. Nesse caso, lembranças, cheiros ou ambientes associados a experiências anteriores de náusea podem desencadear o sintoma. Pesquisas com canabinoides em modelos animais apresentaram resultados promissores, mas ainda não estabelecem a eficácia da nabilona para essa finalidade em pessoas.

Para quais outras condições a nabilona é usada off-label?

O termo off-label, frequentemente traduzido como “fora da bula”, significa usar um medicamento para uma finalidade diferente das indicações oficialmente aprovadas pela agência reguladora, como a Anvisa, no Brasil, ou a FDA, nos Estados Unidos.

Com o avanço da pesquisa, podem surgir evidências sobre outras aplicações sem que elas sejam imediatamente incorporadas ao documento. Quando um médico prescreve um medicamento para uma dessas finalidades, esse uso é considerado off-label.

No caso da nabilona, há experiências clínicas fora da bula e aplicações ainda em investigação. O volume e a qualidade das evidências variam entre as condições estudadas, como veremos a seguir.

1. Transtorno por uso de cannabis

O transtorno por uso de cannabis envolve a dificuldade de controlar o consumo, mesmo quando ele causa prejuízos à vida da pessoa. A redução ou interrupção do uso pode provocar irritabilidade, ansiedade, insônia e perda de apetite.

A nabilona vem sendo investigada como apoio para aliviar esses sintomas e tornar o período de abstinência mais tolerável.

2. Pesadelos e alterações do sono no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

Os pesadelos relacionados ao trauma podem interromper o sono e afetar o bem-estar de pessoas com TEPT. A nabilona tem sido utilizada de forma off-label para tentar reduzir esses episódios, especialmente quando persistem apesar dos tratamentos convencionais.

As pesquisas sobre essa aplicação ainda são limitadas, mas apontam potencial para aliviar os pesadelos e melhorar o descanso.

3. Dor crônica, fibromialgia e esclerose múltipla

A nabilona também tem sido utilizada como tratamento complementar para dores de difícil controle. Entre as aplicações estudadas estão a dor neuropática e as dores difusas associadas à fibromialgia, com resultados que sugerem potencial para aliviar os sintomas.

Na esclerose múltipla, pesquisas avaliaram seu uso para a dor neuropática e a dor relacionada à espasticidade, que provoca rigidez muscular e espasmos. Um estudo com nabilona associada à gabapentina observou redução da dor e de seu impacto nas atividades diárias.

Esses achados ajudam a orientar a investigação de opções adicionais para quem não encontra alívio suficiente com o tratamento habitual.

4. Perda de apetite associada ao câncer

A nabilona tem sido investigada por seu potencial para favorecer o apetite e a ingestão alimentar em pessoas com câncer avançado. Em um estudo com pacientes com câncer de pulmão, houve um resultado favorável no consumo de carboidratos. A ingestão calórica também apresentou uma tendência favorável, mas a diferença em relação ao placebo não foi estatisticamente significativa.

O estudo não demonstrou melhora do apetite ou do peso em comparação com placebo. Além disso, apenas 22 dos 47 participantes concluíram as oito semanas de acompanhamento, o que limita as conclusões. Os achados alimentares ajudam a formular novas perguntas de pesquisa, sem estabelecer a nabilona como tratamento para recuperar o peso ou reverter a perda de massa muscular.

Essa aplicação permanece em investigação e é diferente da indicação aprovada para náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia.

Quais são os principais efeitos colaterais da nabilona?

Os efeitos mais relatados incluem sonolência, tontura e boca seca. Também podem ocorrer dificuldade de concentração ou coordenação, euforia, mudanças na percepção, queda da pressão ao se levantar e aumento dos batimentos cardíacos. A intensidade varia conforme a dose e a resposta individual.

O acompanhamento é especialmente importante no início do tratamento e após ajustes de dose. Ele permite avaliar o alívio dos sintomas e reconhecer efeitos que estejam atrapalhando a rotina. Confusão importante, alucinações ou alterações intensas de comportamento exigem avaliação médica rápida.

Álcool e medicamentos com ação sedativa podem intensificar a sonolência e o prejuízo da atenção. Durante o tratamento, a pessoa não deve dirigir nem operar máquinas. Informar ao médico os outros medicamentos em uso ajuda a planejar o tratamento e a reduzir interações.

Nabilona no Brasil: disponibilidade e regras de importação

Atualmente, não há medicamentos à base de nabilona registrados na Anvisa para comercialização no Brasil. Por isso, ela não é encontrada em farmácias ou drogarias do país.

Em situações específicas, porém, o medicamento pode ser importado para uso pessoal, desde que haja autorização prévia da Anvisa. Como se trata de uma substância sujeita a controle especial e sem registro no país, a importação segue regras diferentes das aplicáveis aos produtos derivados da Cannabis sativa, que contam com uma regulamentação própria (RDC nº 660/2022).

No caso da nabilona, o paciente ou seu responsável legal precisa fazer um pedido de importação excepcional, que só é considerado quando não existem alternativas terapêuticas adequadas registradas no Brasil. A solicitação é feita pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI) da Anvisa e costuma exigir:

  • formulário de solicitação de importação excepcional, assinado pelo paciente ou responsável;
  • prescrição médica;
  • laudo médico com o diagnóstico e a justificativa para o uso de um medicamento sem registro, em comparação com os tratamentos disponíveis no país;
  • termo de responsabilidade assinado pelo médico e pelo paciente.

O acesso à nabilona no Brasil deve começar pela avaliação médica e pela verificação da situação regulatória do produto.

Conclusão

A nabilona ilustra como o desenvolvimento de canabinoides sintéticos ampliou as possibilidades terapêuticas a partir do conhecimento sobre a Cannabis sativa. Sua contribuição mais estabelecida está no controle de náuseas e vômitos da quimioterapia que persistem apesar dos tratamentos convencionais.

As pesquisas sobre dor, sono, abstinência de cannabis e apetite acrescentam novas perspectivas a essa trajetória. Com estudos mais amplos, será possível compreender melhor quais benefícios o medicamento pode oferecer, quem tende a se beneficiar e como incorporá-lo ao cuidado de diferentes condições clínicas.

Este conteúdo é informativo. A avaliação, a prescrição e qualquer início, interrupção ou ajuste do tratamento devem ser acompanhados por um profissional de saúde.

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Dúvidas frequentes

A nabilona é derivada da planta de Cannabis sativa?

Não. Ela é produzida em laboratório. Sua estrutura é semelhante à do THC, mas a substância não é extraída da planta.

A nabilona causa efeitos psicoativos?

Sim. Sua ação no sistema nervoso pode provocar euforia, mudanças na percepção e outros efeitos, como sonolência e tontura. A intensidade varia entre as pessoas.

A nabilona é o mesmo que THC?

Não. Ela é um análogo sintético: tem estrutura semelhante à do delta-9-THC, com modificações que lhe conferem características próprias.

Nabilona e dronabinol são o mesmo medicamento?

Não. O dronabinol corresponde ao delta-9-THC; a nabilona é uma molécula modificada. Ambos têm aplicações médicas, mas suas doses e seus perfis de ação são diferentes.

A nabilona pode ser utilizada para tratar dor?

Ela é estudada e utilizada em alguns contextos de forma off-label como tratamento complementar. Há resultados promissores em condições específicas, mas o benefício varia conforme o tipo de dor.

Como verificar a disponibilidade da nabilona no Brasil?

Consulte o registro do produto na base oficial da Anvisa e converse com o médico sobre as opções de acesso e tratamento. A pesquisa pode ser feita pelo nome comercial ou pelo princípio ativo.

É possível importar nabilona para uso próprio?

A possibilidade depende do enquadramento sanitário do medicamento. Antes da compra, confirme com a Anvisa se a importação é permitida, se exige autorização e quais documentos são necessários.

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Contribuidores:

Andrea Vieira

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