Neste artigo, você vai entender o que a mais recente revisão Cochrane descobriu sobre o uso da cannabis medicinal para tratar a insônia, como os estudos foram feitos e quais efeitos foram observados no sono.

- Os estudos disponíveis ainda são pequenos e curtos demais para medir o real potencial da cannabis medicinal contra a insônia.
- Houve um sinal de possível melhora na qualidade de vida dos participantes, um achado que merece ser investigado em pesquisas maiores.
- Os efeitos adversos relatados foram, em geral, leves, como boca seca e tontura.
- O interesse pela cannabis como tratamento para o sono está em expansão, e novos ensaios, maiores e mais longos, devem trazer respostas mais claras.
A insônia é muito comum e afeta a saúde, o trabalho e a qualidade de vida. Os remédios disponíveis ajudam, mas têm limitações, como efeitos colaterais e preocupações com o uso prolongado. Nesse cenário, cresceu o interesse pela cannabis medicinal como alternativa para dormir melhor.
Para organizar o que se sabe, uma revisão Cochrane publicada em 13 de outubro de 2026 reuniu os ensaios clínicos disponíveis sobre o tema. A conclusão é que as evidências atuais ainda não são suficientes para responder à pergunta com segurança.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Manitoba, no Canadá, e do Centro Associado Cochrane do Hospital Italiano de Buenos Aires, na Argentina, tendo como autora principal a pesquisadora Lucia Varela.
O que a revisão Cochrane investigou sobre cannabis e insônia
A revisão teve como objetivo avaliar os benefícios e os riscos da cannabis medicinal em adultos com insônia. Os desfechos principais foram a qualidade do sono, o tempo total de sono e os efeitos adversos. Os pesquisadores também analisaram o tempo para pegar no sono, os despertares durante a noite, o funcionamento durante o dia, os sintomas de abstinência e a qualidade de vida.
A motivação da pesquisa é que a insônia é muito comum e representa um peso tanto para a pessoa quanto para a sociedade, com impacto na saúde, no trabalho e na qualidade de vida. Os medicamentos disponíveis hoje ajudam, mas têm limitações, como efeitos colaterais e preocupações com o uso prolongado.
Para realizar o estudo, os pesquisadores reuniram os ensaios clínicos randomizados sobre o tema publicados até abril de 2025. Nesse tipo de estudo, os participantes são sorteados para receber o tratamento avaliado ou um comparador. É o desenho mais confiável para saber se um tratamento realmente funciona, porque reduz a influência do acaso e das expectativas de pacientes e pesquisadores.
Foram incluídos estudos que comparavam a cannabis medicinal com placebo (uma substância sem efeito ativo) ou com medicamentos já usados para insônia: benzodiazepínicos, as chamadas drogas Z (como o zolpidem), remédios que atuam nos receptores de melatonina, antidepressivos e antipsicóticos. Produtos experimentais ficaram de fora, para que a análise se concentrasse em formulações de uso real.
Sempre que possível, os resultados foram combinados em uma metanálise. O risco de viés de cada estudo foi avaliado com a ferramenta RoB 2, e a confiança em cada resultado foi classificada pelo sistema GRADE, que vai de alta a muito baixa.
O perfil das pesquisas analisadas
A revisão reuniu 9 ensaios clínicos, com 537 adultos de 18 a 76 anos. É um conjunto de evidências pequeno, principalmente quando comparado ao que existe para os remédios tradicionais. Uma revisão publicada na revista The Lancet em 2022 sobre medicamentos para insônia reuniu 170 ensaios clínicos, com quase 48 mil participantes. Com tão poucos dados, os resultados sobre a cannabis ficam mais sujeitos a imprecisão, e um único estudo novo pode mudar bastante as conclusões.
Cerca de 73% dos participantes eram mulheres, o que limita a aplicação dos resultados aos homens. A maioria tinha insônia primária, ou seja, sem relação com outra doença. Isso significa que a revisão diz pouco sobre pessoas cuja insônia vem acompanhada de dor crônica, ansiedade, depressão ou outras condições, situações em que a cannabis muitas vezes é usada na prática.
Seis estudos avaliaram pessoas com insônia crônica, e três, pessoas com insônia aguda. A diferença está na duração: a insônia crônica é aquela que ocorre pelo menos três noites por semana e persiste por três meses ou mais; a aguda dura menos tempo e costuma estar ligada a um fator desencadeante, como estresse ou mudança de rotina. Como as duas têm causas e evolução diferentes, um tratamento pode funcionar para uma e não para a outra.
Oito estudos compararam a cannabis medicinal com placebo, e apenas um a comparou com um medicamento ativo, o antidepressivo amitriptilina, que em doses baixas é usado para ajudar a dormir. Esse único estudo foi feito com pessoas com fibromialgia, um grupo bem específico. Na prática, a revisão consegue indicar se a cannabis é melhor do que não tomar nada, mas quase não informa se ela é melhor ou pior do que os remédios que os médicos já prescrevem.
Por fim, dois estudos usaram produtos registrados, aprovados por agências reguladoras, com composição padronizada e controle de qualidade. Os outros sete usaram preparações magistrais, isto é, manipuladas em farmácia. Nessas preparações, a quantidade de canabinoides como THC e CBD pode variar entre fórmulas e até entre lotes, o que dificulta comparar os estudos entre si e saber exatamente qual composição produziu cada efeito.
O que a revisão encontrou: a cannabis medicinal melhora o sono?
Na comparação com placebo, a cannabis medicinal pode ter pouco ou nenhum efeito clinicamente relevante sobre os principais desfechos de sono, mas a evidência é muito incerta. Na classificação GRADE, a certeza foi considerada muito baixa, o que significa que o efeito real pode ser bem diferente do observado.
| Desfecho | Estudos | Participantes | Resultado em comparação com placebo | Certeza da evidência (GRADE) |
|---|---|---|---|---|
| Qualidade do sono / satisfação | 7 | 374 | Pouca ou nenhuma melhora relevante | Muito baixa |
| Tempo total de sono | 6 | 194 | Aumento médio de cerca de 8 minutos, sem relevância clínica | Muito baixa |
| Funcionamento diurno | 5 | 144 | Pouca ou nenhuma melhora relevante | Muito baixa |
| Qualidade de vida | 3 | 95 | Possível melhora, mas resultado inconclusivo | Muito baixa |
| Efeitos adversos | 3 | 98 | Mais frequentes com cannabis, em geral leves | Baixa |
Qualidade do sono / satisfação
Tempo total de sono
Funcionamento diurno
Qualidade de vida
Efeitos adversos
1. Tempo total de sono: diferença de cerca de 8 minutos
Esse desfecho mede quanto tempo a pessoa efetivamente dormiu. Em média, quem usou cannabis dormiu cerca de 8 minutos a mais, mas a margem de incerteza é ampla: o efeito real pode variar de 23 minutos a menos até 38 minutos a mais de sono. Com uma faixa tão larga, não é possível afirmar que houve ganho relevante.
2. Qualidade do sono: sem diferença clara em relação ao placebo
Aqui a pergunta é como a pessoa percebeu a noite: se o sono foi reparador e se ela ficou satisfeita com o descanso. Foi o desfecho com mais dados, reunindo 7 estudos, e ainda assim não mostrou diferença clara entre cannabis e placebo. A confiança nesse resultado é muito baixa.
3. Funcionamento durante o dia: sem diferença clara
Para quem tem insônia, cansaço, falta de concentração e irritabilidade costumam pesar tanto quanto a noite mal dormida. Nesse aspecto, também não houve diferença clara entre os grupos, e a confiança no resultado é muito baixa.
4. Qualidade de vida: resultado incerto
Os estudos sugeriram uma possível melhora na qualidade de vida, mas a confiança nesse resultado é muito baixa, e o dado vem de apenas 3 estudos. Os resultados combinados são compatíveis com qualquer cenário entre uma leve piora e uma grande melhora, por isso não é possível saber nem a direção do efeito.
5. Efeitos adversos: mais frequentes com cannabis
Quanto à segurança, quem usou cannabis medicinal relatou mais efeitos adversos do que quem recebeu placebo. Em geral, foram efeitos leves, como boca seca e tontura. Esse dado vem de apenas 3 estudos, com 98 pessoas, e a confiança no resultado é baixa.
O que esses resultados significam
Os resultados não provam que a cannabis medicinal é ineficaz para insônia. Mostram que os estudos disponíveis até agora são poucos, pequenos e curtos demais para permitir uma conclusão confiável, seja a favor, seja contra o tratamento. O estudo mais longo acompanhou os participantes por apenas 12 semanas, então também não se sabe quais são os efeitos do uso prolongado.
Os 5 problemas metodológicos que enfraquecem os estudos atuais
A principal fragilidade não está no trabalho da Cochrane, mas nos estudos disponíveis sobre o tema: nove ensaios pequenos, curtos e muito diferentes entre si. Segundo os autores, a confiança nas evidências foi rebaixada principalmente por três motivos: risco de viés nos estudos, resultados inconsistentes entre eles e imprecisão das estimativas.
Os cinco principais problemas são:
- Alto risco de viés. A maioria dos estudos foi classificada com risco de viés alto, ou seja, com falhas no desenho ou na condução que podem distorcer os resultados, para mais ou para menos. Além disso, sete dos nove estudos eram cruzados: o mesmo participante recebe cannabis e placebo em momentos diferentes. É um desenho útil quando há poucos voluntários, mas exige cuidados extras, porque o efeito de um período pode interferir no seguinte.
- Amostras pequenas. Os nove estudos somaram 537 participantes, cerca de 60 por estudo, em média. Com grupos desse tamanho, os resultados ficam imprecisos, e é difícil confirmar um efeito real ou descartá-lo com segurança. É por isso que, no tempo total de sono, a margem de incerteza vai de uma perda a um ganho de vários minutos.
- Acompanhamento curto. O estudo mais longo durou 12 semanas. Como a insônia crônica costuma durar meses ou anos, esse prazo não permite avaliar o efeito prolongado, o desenvolvimento de tolerância ou o risco de dependência.
- Falta de padronização. Os estudos usaram produtos diferentes: dois testaram medicamentos registrados e sete usaram preparações magistrais, com composições e doses variadas. O mesmo desfecho também foi medido com escalas e instrumentos diferentes de um estudo para outro. Somar esses resultados é como colocar tratamentos diferentes na mesma balança, o que ajuda a explicar a inconsistência entre os estudos.
- Perfil restrito de participantes. A maioria era de adultos mais jovens, com predominância de mulheres e insônia primária, ou seja, sem outra doença como causa. Homens, idosos e pessoas com insônia associada a outras condições, como dor crônica, ansiedade ou depressão, foram pouco representados, e os resultados podem não valer para esses grupos.
Diante desse cenário, os autores recomendam novos ensaios maiores, bem desenhados e com acompanhamento mais longo. Esses estudos devem usar produtos padronizados e desfechos clinicamente relevantes, registrar em detalhe a eficácia e os efeitos adversos, inclusive os de longo prazo, e incluir populações mais diversas.
Conclusão
A revisão Cochrane é, até agora, a análise mais rigorosa sobre o uso da cannabis medicinal para insônia, e sua mensagem é de cautela. Isso não significa que a cannabis seja ineficaz, mas que os estudos disponíveis são poucos, pequenos e curtos demais para responder à pergunta com segurança. Enquanto pesquisas maiores e mais longas não forem feitas, não há base sólida para recomendá-la como tratamento para insônia.

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Qual é o tratamento de primeira linha para a insônia?
A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é o tratamento de primeira linha recomendado pelas diretrizes clínicas. A revisão Cochrane não avaliou a TCC-I, mas a cita como o principal tratamento disponível. Os medicamentos costumam ser indicados quando a terapia não está disponível ou não funciona, geralmente por curto prazo.
A revisão Cochrane provou que a cannabis medicinal não funciona para o sono?
Não. A revisão concluiu que a cannabis pode ter pouco ou nenhum efeito relevante sobre o sono, mas a evidência é muito incerta. Os estudos disponíveis são poucos, pequenos e curtos demais para confirmar ou descartar um benefício.
Por que os estudos atuais não bastam para avaliar a insônia crônica?
Porque a insônia crônica costuma durar meses ou anos, e o estudo mais longo acompanhou os participantes por apenas 12 semanas. Esse prazo não permite saber se o efeito se mantém, nem avaliar o risco de tolerância e dependência.
Idosos e pessoas com outras doenças foram incluídos nos estudos?
Muito pouco. A maioria dos participantes era de adultos de meia-idade, principalmente mulheres, com insônia não associada a outras doenças. Idosos e pessoas com insônia ligada a condições como dor crônica ou depressão ficaram sub-representados, por isso os resultados podem não valer para esses grupos.
O que falta para que a cannabis possa ser recomendada para insônia?
Segundo os autores, são necessários ensaios clínicos maiores e mais bem desenhados, com acompanhamento mais longo, produtos e desfechos padronizados, relato detalhado dos efeitos adversos e participantes mais diversos.
Posso trocar meu remédio para dormir por cannabis medicinal?
A substituição de qualquer medicamento para dormir por cannabis medicinal deve ser avaliada e orientada estritamente por um profissional de saúde qualificado. A automedicação ou a interrupção abrupta de tratamentos convencionais trazem riscos à saúde. Saiba também sobre as possíveis interações medicamentosas do CBD.
Quais efeitos colaterais a cannabis medicinal causou nos estudos?
Os mais comuns foram boca seca e tontura, em geral leves.
Referências
VARELA, L. B. et al. Medical cannabis for the treatment of insomnia. Cochrane Database of Systematic Reviews, [s. l.], n. 10, art. CD016216, 2026. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD016216.pub2.
DE CRESCENZO, F. et al. Comparative effects of pharmacological interventions for the acute and long-term management of insomnia disorder in adults: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet, London, v. 400, n. 10347, p. 170-184, 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(22)00878-9.




