O uso terapêutico da cannabis tem conquistado cada vez mais espaço no Brasil e se consolidado como uma alternativa para o tratamento de diversas condições de saúde. Neste artigo, você entenderá o que é a cannabis medicinal, como ela atua no organismo, quais são suas principais aplicações e o que a legislação brasileira estabelece sobre o tema.

- Cannabis medicinal refere-se ao uso terapêutico da planta *cannabis sativa* e de seus derivados.
- CBD e THC são os principais fitocanabinoides estudados por seus potenciais efeitos terapêuticos.
- Os compostos da *cannabis* interagem com o sistema endocanabinoide, que participa da regulação de diversas funções do organismo.
- A terapia com Produtos de Cannabis pode ser utilizada no tratamento de condições como epilepsia refratária, dor crônica, esclerose múltipla e náuseas e vômitos associados à quimioterapia, entre outras.
A cannabis medicinal consiste no uso terapêutico da cannabis sativa e de seus derivados para o tratamento de doenças e o alívio de sintomas. Os produtos utilizados para essa finalidade são desenvolvidos com composição padronizada, controle de qualidade e concentrações conhecidas de canabinoides, o que permite maior precisão na dosagem e mais segurança durante o tratamento.
Como a Cannabis medicinal atua no organismo?
A cannabis medicinal exerce seus efeitos por meio da interação de seus compostos com o sistema endocanabinoide (SEC), uma rede de sinalização celular presente em todo o organismo que contribui para a manutenção da homeostase, ou seja, do equilíbrio interno do corpo.
O SEC participa da regulação de diversas funções fisiológicas, como dor, sono, humor, apetite, memória, resposta ao estresse e atividade do sistema imunológico. Por isso, alterações nesse sistema podem estar relacionadas ao desenvolvimento de diferentes doenças e sintomas.
Essa interação ocorre principalmente por meio dos receptores CB1 e CB2, distribuídos em diferentes órgãos e tecidos. Os receptores CB1 estão concentrados predominantemente no cérebro e no sistema nervoso central, enquanto os receptores CB2 são encontrados principalmente nas células do sistema imunológico e em diversos tecidos periféricos.
Os principais fitocanabinoides da cannabis sativa interagem de formas diferentes com esse sistema. O tetraidrocanabinol (THC) liga-se diretamente aos receptores CB1 e CB2, especialmente aos receptores CB1. Essa ligação está relacionada tanto aos seus efeitos terapêuticos, como o alívio da dor, o controle de náuseas e vômitos e a redução da espasticidade, quanto aos seus efeitos psicoativos, como alterações na percepção, no humor e na cognição.
O canabidiol (CBD), por sua vez, apresenta baixa afinidade pelos receptores CB1 e CB2, o que significa que não atua diretamente sobre eles da mesma forma que o THC. Em vez disso, exerce grande parte de seus efeitos por meio da modulação indireta do sistema endocanabinoide, influenciando a produção, a liberação e a degradação dos endocanabinoides produzidos pelo próprio organismo.
Além disso, o CBD interage com outros alvos biológicos, como os receptores de serotonina (5-HT1A), relacionados à regulação do humor e da ansiedade, e os canais TRPV1, envolvidos na percepção da dor e dos processos inflamatórios.
Quais são os principais compostos da cannabis?
A cannabis sativa produz mais de 500 compostos químicos, dos quais mais de 100 são fitocanabinoides. Além deles, a planta contém terpenos e flavonoides, substâncias que também contribuem para suas características químicas e vêm sendo investigadas por seu potencial biológico.
Os principais grupos de compostos são:
1. Fitocanabinoides: são substâncias produzidas naturalmente pela Cannabis sativa que interagem, de forma direta ou indireta, com o sistema endocanabinoide. Entre os principais, destacam-se:
- CBD (canabidiol): um dos principais fitocanabinoides da planta. Não produz os efeitos psicoativos típicos do THC e vem sendo amplamente estudado por seu potencial terapêutico em diferentes condições clínicas.
- THC (tetraidrocanabinol): principal fitocanabinoide responsável pelos efeitos psicoativos típicos. Também possui aplicações terapêuticas reconhecidas em determinadas condições.
- CBG (canabigerol): conhecido como o "canabinoide precursor", participa da formação de diversos outros canabinoides produzidos pela planta e vem sendo estudado por seu potencial terapêutico.
- CBN (canabinol): é formado principalmente pela degradação natural do THC ao longo do tempo e também desperta interesse científico por suas possíveis aplicações terapêuticas.
Efeito psicoativo é a capacidade de uma substância provocar alterações temporárias no funcionamento do cérebro, influenciando a percepção, o humor, a atenção, a memória e a coordenação motora.
2. Terpenos: compostos aromáticos produzidos pela cannabis e por diversas outras espécies vegetais. Além de conferirem aroma e sabor característicos à planta, vêm sendo investigados por suas propriedades biológicas. Entre os principais terpenos da cannabis destacam-se o mirceno, o limoneno, o linalol, o pineno e o β-cariofileno.
3. Flavonoides: compostos fenólicos presentes em frutas, vegetais e também na cannabis. Alguns flavonoides exclusivos dessa planta, chamados canaflavinas, despertam interesse científico por seu potencial biológico e vêm sendo estudados em diferentes linhas de pesquisa.
Quais doenças podem ser tratadas com cannabis medicinal?
A cannabis medicinal vem sendo utilizada como parte do tratamento de diversas condições de saúde, entre elas:
1. Doenças neurológicas
As doenças neurológicas estão entre as áreas com maior número de estudos sobre a terapia canabinoide. As principais condições investigadas incluem epilepsia refratária, esclerose múltipla, doença de Parkinson e doença de Alzheimer. Nesses casos, os canabinoides têm sido estudados principalmente pelo seu potencial para auxiliar no controle de sintomas e contribuir para a melhora da qualidade de vida.
2. Dor crônica
A dor crônica é uma das indicações mais frequentes na prática clínica. Diversos estudos sugerem que a cannabis pode contribuir para a redução da intensidade da dor e para a melhora da qualidade de vida em pacientes selecionados. Entre as principais condições estudadas estão dor neuropática, fibromialgia, dor relacionada ao câncer, artrite e artrose.
3. Transtornos psiquiátricos e do neurodesenvolvimento
Esse tipo de tratamento também vem sendo estudado em condições relacionadas à saúde mental.Entre elas estão o transtorno do espectro autista (TEA), os transtornos de ansiedade e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
4. Distúrbios do sono
Os distúrbios do sono também estão entre as condições em que a cannabis desperta interesse científico. A principal indicação estudada é a insônia.
5. Oncologia e cuidados paliativos
Na oncologia, a cannabis medicinal é utilizada principalmente para o controle de sintomas relacionados ao câncer e aos seus tratamentos. Suas principais aplicações incluem o controle de náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia, o estímulo do apetite em pessoas com perda significativa de peso, o alívio da dor e a melhora da qualidade de vida durante os cuidados paliativos.
Além dessas aplicações, a cannabis medicinal também vem sendo investigada em diversas outras condições clínicas. Estudos avaliam seu potencial terapêutico em enxaqueca, neuropatia diabética dolorosa, lesões medulares, doenças dermatológicas e transtornos relacionados ao uso de substâncias, entre outras condições.
Embora os resultados sejam promissores em algumas áreas, o nível de evidência científica varia conforme a doença estudada.
Quais são as formas de uso e administração da cannabis medicinal?
A cannabis medicinal pode ser administrada por diferentes vias de uso, o que permite adaptar o tratamento às necessidades de cada paciente e à sua condição clínica. A escolha da forma de uso depende de fatores como a doença tratada, a rapidez desejada do efeito, a duração da ação e a orientação médica.
As principais formas de administração são:
- Óleo sublingual: é a forma mais utilizada no Brasil. As gotas são administradas sob a língua, o que favorece a absorção e permite um ajuste preciso da dose.
- Cápsulas: oferecem doses padronizadas e são uma alternativa para pacientes que preferem evitar o sabor dos óleos.
- Soluções orais: administradas por via oral, são utilizadas em situações específicas e permitem ajustes individualizados da dose.
- Spray bucal: aplicado na mucosa da boca, facilita a absorção dos canabinoides. Alguns medicamentos registrados utilizam essa forma de administração.
- Formulações tópicas: cremes, pomadas e géis podem ser aplicados diretamente sobre a pele, principalmente em pesquisas envolvendo condições dermatológicas ou dores localizadas. Independentemente da forma escolhida, o tratamento deve ser realizado com acompanhamento médico, responsável por definir a via de administração, a composição do produto e a dose mais adequada para cada paciente.
O que diz a legislação brasileira sobre a terapia canabinoide?
O principal marco regulatório é a RDC nº 1.015/2026, que substituiu a RDC nº 327/2019. A norma disciplina todo o ciclo dos produtos de cannabis — da autorização sanitária à dispensação e farmacovigilância — e define requisitos de rotulagem e controle de qualidade.
A RDC nº 1.013/2026 regulamenta o cultivo da Cannabis sativa com teor de THC igual ou inferior a 0,3%, destinado a fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa. O cultivo é restrito a estabelecimentos autorizados pela Anvisa, sob critérios de segurança, rastreabilidade e fiscalização, e a norma também regula a importação de sementes e o fornecimento de matéria-prima.
A legislação sobre a importação de produtos de cannabis por pessoa física é definida pela RDC nº 660/2022 e estabelece um processo específico junto à Anvisa.
Cannabis medicinal causa efeitos colaterais?
Sim. Como qualquer tratamento, a cannabis medicinal pode causar efeitos colaterais. Na maioria dos casos, essas reações são leves, transitórias e tendem a diminuir à medida que o organismo se adapta ao tratamento ou com o ajuste da dose pelo profissional de saúde.
A frequência e a intensidade dos efeitos variam conforme fatores como o tipo de Produto de Cannabis utilizado, a dose, a proporção entre CBD e THC, a via de administração e as características individuais de cada pessoa.
Os efeitos colaterais mais comuns incluem:
- sonolência;
- tontura;
- boca seca;
- fadiga;
- alterações no apetite;
- diarreia ou desconforto gastrointestinal.
É importante destacar que produtos com maior concentração de THC apresentam maior probabilidade de causar efeitos psicoativos, como alterações na percepção, na atenção e na coordenação motora. Por esse motivo, o tratamento deve ser sempre acompanhado por um profissional habilitado, que poderá ajustar a dose ou a formulação quando necessário.
Como iniciar um tratamento com Cannabis medicinal?
O primeiro passo é consultar um médico. Durante a avaliação, o profissional analisará o histórico de saúde, o diagnóstico e os tratamentos já realizados, verificando se a cannabis medicinal pode ser uma opção terapêutica para o caso.
Se houver indicação, o médico definirá o produto mais adequado, sua composição (CBD, THC ou outros canabinoides), a via de administração, a dose inicial e o plano de acompanhamento.
De forma geral, o processo ocorre nas seguintes etapas:
- Consulta médica: avaliação da condição clínica e da indicação do tratamento.
- Prescrição: definição do produto, da dose e da via de administração.
- Aquisição do produto: compra em farmácias autorizadas ou importação, conforme a legislação vigente.
- Início do tratamento: geralmente começa-se com doses baixas, que podem ser ajustadas gradualmente de acordo com a resposta clínica e a tolerabilidade.
- Acompanhamento: consultas periódicas para avaliar a eficácia, monitorar possíveis efeitos adversos e, quando necessário, ajustar a dose ou a formulação.
Como a resposta à cannabis medicinal varia de pessoa para pessoa, o acompanhamento médico ao longo do tratamento é essencial para garantir maior segurança e efetividade.
Conclusão
A cannabis medicinal representa uma importante alternativa terapêutica para diferentes condições de saúde, desde que utilizada com indicação adequada e acompanhamento profissional.
Conhecer seu mecanismo de ação, os principais canabinoides, as formas de administração e a regulamentação brasileira é essencial para compreender seus benefícios, limitações e o papel que essa terapia pode desempenhar na prática clínica.
Com a evolução das pesquisas, espera-se que novas evidências ampliem ainda mais as indicações e a segurança do tratamento.

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Qual é a diferença entre cannabis medicinal e maconha?
A cannabis medicinal refere-se ao uso terapêutico da cannabis sativa e de seus derivados para prevenir, tratar ou aliviar sintomas de diferentes condições de saúde. Para essa finalidade, são utilizados Produtos de Cannabis desenvolvidos especificamente para uso medicinal, com composição padronizada, controle de qualidade e concentrações conhecidas de canabinoides.
Já o termo "maconha" é uma denominação popular da cannabis, geralmente utilizada para se referir ao consumo da planta com finalidade recreativa, embora também possa designar a própria planta em outros contextos.
A cannabis medicinal pode causar dependência?
O potencial de dependência depende da composição do Produto de Cannabis. Formulações à base de CBD apresentam baixo potencial de dependência e não são consideradas causadoras de dependência segundo as evidências científicas disponíveis. Já produtos que contêm THC podem apresentar risco de dependência, embora esse risco seja geralmente menor quando o tratamento é realizado com indicação médica, doses controladas e acompanhamento profissional.
Crianças podem fazer a terapia canabinoide?
Sim. A cannabis medicinal pode ser utilizada em crianças quando houver indicação médica. Seu uso é mais consolidado no tratamento de epilepsias refratárias, especialmente quando as terapias convencionais não controlam adequadamente as crises. Em todos os casos, o tratamento deve ser realizado com acompanhamento médico especializado.
Quanto tempo o canabidiol (CBD) demora para fazer efeito?
O início dos efeitos do CBD varia conforme a via de administração, a dose, a composição do Produto de Cannabis (como a presença ou não de outros canabinoides) e as características individuais de cada pessoa. Em geral, formulações administradas por via sublingual costumam agir mais rapidamente do que as ingeridas por via oral, enquanto os benefícios terapêuticos podem exigir alguns dias ou semanas de uso contínuo, dependendo da condição tratada.
A cannabis medicinal é um medicamento fitoterápico?
Não. A cannabis medicinal é um termo usado para o tratamento com derivados da Cannabis sativa, mas não é uma categoria regulatória. No Brasil, a maioria desses produtos é classificada pela Anvisa como produto de cannabis, enquanto os medicamentos fitoterápicos pertencem a outra categoria, com requisitos próprios de composição, registro e comercialização.
A cannabis medicinal pode ser usada junto com outros medicamentos?
Sim. A Cannabis medicinal pode ser utilizada junto com outros medicamentos, mas essa associação deve ser avaliada pelo médico. Como os canabinoides são metabolizados pelo fígado, eles podem interagir com alguns medicamentos, alterando sua eficácia ou aumentando o risco de efeitos adversos.
A cannabis medicinal cura doenças?
Não. A cannabis medicinal não tem como objetivo curar doenças. Em geral, ela é utilizada como tratamento sintomático, paliativo ou complementar (adjuvante), contribuindo para o controle de sintomas, o alívio da dor e a melhora da qualidade de vida.
Referências
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 1.015, de 2 de fevereiro de 2026. Dispõe sobre a Autorização Sanitária para fabricação e importação de produtos de Cannabis para uso medicinal humano e estabelece requisitos relativos à sua comercialização, e dá outras providências. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 3 fev. 2026.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 1.013, de 30 de janeiro de 2026. Dispõe sobre os requisitos para o cultivo da espécie vegetal Cannabis sativa L. com teor de THC menor ou igual a 0,3% destinado exclusivamente a fins medicinais e/ou farmacêuticos. Diário Oficial da União: Brasília, DF, ed. 23, seção 1, p. 194, 3 fev. 2026.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 660, de 30 de março de 2022. Define os critérios e os procedimentos para a importação de Produto derivado de Cannabis, por pessoa física, para uso próprio, mediante prescrição de profissional legalmente habilitado, para tratamento de saúde. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 31 mar. 2022.




